terça-feira, 22 de junho de 2010

GATILHOS

“Se amo meu semelhante? Sim, mas onde encontrar meu semelhante?” – Mário Quintana.



No blog da Theresa Hilcar, ao qual já me referi em outro post, ela fala sobre os gatilhos que podem disparar uma crise ou aprofundar um estado latente e tem absoluta razão quando escreve que “...o que pode perfeitamente ser trivial, normal, para muitos, é tremendamente dolorido para nós”.

O computador que quebra, fechando sua janela para o mundo.

Um teste de audiometria que te deixa com nervos à flor da pele por não conseguir repetir o que a fonoaudióloga está falando – e descobre-se ainda mais surdo que antes.

O aniversário chegando e nada a comemorar (um ano a menos nesse mundo, talvez...).

A dor na coluna que só piora e te faz sentir muito mais velho do que é.

As contas que chegam e o dinheiro que falta.

Os carros novos dos vizinhos e a sua vaga vazia. “Culpa” por não ser como eles...

Uma proposta de publicação recusada. Nada que faça parece ter valor para quem quer que seja...

A total inutilidade da busca por emprego, que só reforça o sentimento de inaptidão e incompetência...

Mas o pior mesmo da depressão não são os gatilhos nem sintomas. São a burrice, ignorância e estupidez das pessoas que nos cercam.

São elas as responsáveis pelos gatilhos mais devastadores, pelos sintomas mais profundos e doloridos. Talvez por isso deprimidos sejam um tanto misantrópicos.

Que bom seria viver rodeado apenas de animais. Eles nunca o decepcionam, jamais acusam nem questionam. O amam do jeito que é. Eu queria ser a pessoa que meu cão faz parecer que eu sou.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

SONHOS E DÚVIDAS

"Só sabemos com exatidão quando sabemos pouco; à medida que vamos adquirindo conhecimentos, instala-se a dúvida."
Goethe


Um interesse quase nulo sobre o mundo exterior, mas uma intensa e lancinante vivência interior, uma terrível dificuldade em simplesmente viver, profunda insegurança ontológica, um flerte com todos os tipos de crenças sem, no entanto, acreditar em nenhuma delas, falta de identidade e referências numa sociedade em que valores metafísicos estão em pleno declínio.

Posso apostar que você leitor se identifica com o parágrafo acima. Eu me identifico e, assim, me identifico com Fernando Pessoa e Kafka, segundo artigo sobre o "Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Portugês" publicado no Caderno2 do Estadão de ontem. Não sei sobre você, mas a mim falta "apenas" o talento desses dois, talento esse que invejo e busco nas profundezas de meu ser.

Mas será mesmo que tenho algum talento? Se sim, onde terá ido parar que não consigo colocá-lo em prática?

Na caixa de hobbies, ou seja, atividades que dão prazer mas não dão dinheiro? Na repartição de sonhos, ou melhor, coisas fluidas que jamais se materializarão? Na seção de protelados, ou, coisas que deixei pra depois, não desenvolvi e definharam?

Onde está esse talento que tanto procuro? Onde está aquilo que nem sei se existe e que ninguém vê?

Diversos textos nos impelem a buscar e seguir nossos sonhos. Eu mesmo tive por muito tempo - e ainda quero acreditar nela - como diretriz uma frase de Joseph Campbell - "follow your bliss" - mas não estarei eu numa cruzada quixotesca em busca de algo que existe apenas em minha imaginação?

Até que ponto devemos correr em busca de nossos sonhos enquanto, como cantava Cazuza, "o tempo não pára" e a vida vai passando, passando?...

Não será essa minha busca por um suposto talento um artifício que criei para mim mesmo a fim de fugir ao "sistema", ou seja, parar de procurar emprego que, aliás, há tempos é uma tarefa inútil e só me deixa ainda mais deprimido por não resultar em nada?

Existem as mais diversas estórias e causos sobre aqueles que teimaram, lutaram e até remaram contra a maré atrás de sonhos e, finalmente, triunfaram. Muito bonito, mas há um detalhe: conhecemos as estórias dos que tiveram sucesso em suas empreitadas simplesmente porque são ou ficaram famosos com isso.

Não conhecemos as estórias - e o mundo faz questão de escondê-las de nós - daqueles que lutaram a vida toda, se esforçaram ao máximo, tiveram até prejuízos materiais, pessoais e sociais em suas buscas por seus sonhos e, antes de alcançá-los ou materializá-los, seus tempos acabaram, morreram pobres, anônimos, sozinhos.

Sabendo que as estórias de fracassos são a maioria, caso contrário a pirâmide social teria de ser invertida, outra amargurante questão se coloca: vale mesmo a pena lutar sempre, desistir jamais? Ou essa é apenas mais uma frase bonitinha pseudo-motivadora que alegra as cabeças menos-pensantes?

É mesmo certo passar poeticamente a vida atrás de um sonho ou assumirmos pragmaticamente nossa existência e, não visualizando outra saída no horizonte, arrumar um emprego qualquer apenas para pagar as contas e ir sobrevivendo?

E o risco de, no ir sobrevivendo, nos acostumarmos a isso e vida passar, passar, até que seja tarde demais?

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Depressivo na Contramão

É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz a uma estrela brilhante

Nietzsche.
 
 
"O Depressivo na Contramão" (leia ali no menu "Artigos", à direita) é mais um brilhante artigo sobre depressão, analisando o livro o Tempo e o Cão, que novamente recomendo.
 
Acredito que todo deprimido já se sentiu na contramão de seu tempo, de sua sociedade, e injustiçado por se sentir assim.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

SUB ZERO

Não sou nada.

Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.

Trechos de “Tabacaria”, Fernando Pessoa.


Dia desses recebi por e-mail, de novo, aquela tal estorinha da reunião numa multinacional em que o chefão diz que ninguém é insubstituível e alguém solta um “E Beethoven?”.

Segue-se então a costumeira lição de moral que tenta nos fazer acreditar que, pelo contrário, nós somos sim insubstituíveis.

Eu até acho legais algumas dessas estorinhas de auto-ajuda, de motivação mas, em geral, elas carregam consigo dois problemas: para pessoas com a auto estima sub zero como eu, que já tentou praticamente de tudo pra “dar certo” na vida (seja lá o que isso for) e não conseguiu, elas caem na questão da auto ajuda que não ajuda quem realmente precisa (veja este post mais antigo). Outra coisa é que, invariavelmente, ou elas fogem à realidade ou, pior, mentem descaradamente.

Uma das que mentem descaradamente é aquela da águia que se retira no alto da montanha, arranca as próprias penas e até o bico para depois meio que renascer, renovada, para enfrentar os desafios da vida. É preciso lembrar às pessoas, ao menos àquelas com idade mental adulta, de que pássaros assim não existem na natureza. E a Fênix é apenas um ser mitológico...

Outras, apenas derrapam. É o caso dessa do insubstituível.

Derrapa em primeiro lugar quando diz que “...Cabe aos líderes de sua organização mudar o olhar sobre a equipe e voltar seus esforços em descobrir os pontos fortes de cada membro. Fazer brilhar o talento de cada um em prol do sucesso de seu projeto”.

Isso significa que eu tenho o tal talento mas é o outro – os líderes, o chefe... - que precisa me descobrir e me incentivar... Ora, saída pela esquerda, não?! Se não tenho sucesso não é porque sou um zero à esquerda, é culpa dos outros que ainda não me descobriram. Brilhante...

Depois, dizer que somos únicos é... O óbvio ululante! Claro que somos todos únicos, assim como todo mundo. Isso é uma coisa. Outra é ter, de fato, um talento único.

De uma vez por todas, NÃO, não somos todos Beethovens, Einsteins, Garrinchas ou Zacarias. Muitos de nós não tem talento especial algum ou, que seja, talento razoavelmente destacante e aproveitável numa empresa.

Muitos de nós, a imensa maioria, somos apenas peões. De macacão ou de gravata, mas peões. Somos sim substituíveis. Não fosse assim o sistema todo, a economia, a vida em sociedade não funcionava. Lembrando que se você não é substituível também não pode ser promovido, certo?!  ;-)

Mas ninguém, com ou sem talento, gosta desse tipo de choque de realidade. Auto-enganar-se parece ser o hobby oficial e natural do ser humano.

domingo, 30 de maio de 2010

AUTO ENGANO

A relação mais íntima, traiçoeira e definidora de um ser humano é a que ele trava consigo mesmo.


Essa frase está no livro Auto Engano, de Eduardo Gianetti.

Há algum tempo quero ler esse livro, mas em minhas divagações acabo esquecendo de comprar. Hoje, procurando por uma resenha dele, acabei encontrando o PDF do livro na íntegra, que compartilho com vocês aqui no Crônicas.

Veja o menu de "Artigos" alí à direita.

Comecei a ler e ainda não posso dar minha opinião mas, sendo a depressão uma viagem às profundezas de nosso interior, acredito que vale o investimento de tempo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O LADO BOM DA DEPRESSÃO


Antes de se revoltar com o título (li várias críticas coléricas em outros sites), leia com atenção. A Revista Galileu publicou artigo bastante interessante sobre o assunto.

Acredito que a depressão seja um processo e, como tal, obviamente há começo, meio e fim. Não tenho muita certeza sobre se há mesmo um fim ou apenas um recesso, uma diminuição dos sintomas - ou, talvez, quem tenha passado por tal processo nunca mais volta a ser a mesma pessoa de antes, por isso a não percepção de fim no sentido de "voltar ao normal".

De qualquer modo, creio que é possível sim enxergar o lado bom desse transtorno, basta que se chegue neste estágio.

Se você não vê é porque ainda não chegou lá.

Na coluna à direita coloquei um link para um "doc no qual copiei parte de artigos nesse sentido.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

DONA ROSA



Minha mais forte recordação dela somos nós dois, em plena tarde de sol, sentados no sofá da sala, ela fazendo tricô (ou aquilo era crochê, nunca sei) e eu comendo biscoitos.

Volta e meia, olhando sobre os óculos, ela dava uma espiadela na TV em preto e branco em que eu assistia aos desenhos do Pernalonga.

Gordinho, às vezes eu “matava” um pacote de bolacha ou salgadinho e ela me dava dinheiro pra ir correndo durante o intervalo comprar outro na venda da esquina.
Enquanto minha mãe, professora de primário, trabalhava meio período – que era quase que o dia inteiro pois gastava horas de ônibus entre o Ipiranga e São Caetano – ela que tomava conta de mim.

Nos raros momentos de sarcasmo, gostava de lembrar à família toda cenas de quando eu era bem pequeno, coisas envolvendo nariz escorrendo, fraldas cheias, medos... Não era por mal, claro, era só pra rirmos um pouco.

Minha avó paterna, a Dona Rosa, 93 anos, faleceu hoje.

terça-feira, 11 de maio de 2010

DEPRESSÃO COMO UM DESPERTAR DA IGNORÂNCIA SOBRE A VIDA

A frase acima, de certo modo, resume meus últimos 5 anos. Era essa "A" frase que tanto procurei.

Achei em um web site, cujo endereço repasso abaixo, repleto de curtos e interessantes artigos sobre nosso assunto em particular.

Não vejo com muito bons olhos a frase "Cura para a Depressão através..." disso ou daquilo, mas como não há nenhum "clique aqui e compre..." ou "filie-se à nossa Igreja" abaixo dos textos, vale a pena uma lida.

São textos breves, não sei da profundidade de seu valor médico-científico mas, muitas vezes, o óbvio é a coisa mais difícil de enxergar e é disso que eles tratam.


Gostei especialmente de ter lido algo sobre o que intuía - o despertar (nem diria tanto da ignorância, mas da ingenuidade) e da descoberta de potenciais desconhecidos (ambos no menu à direita - Despertar para a Vida).

O endereço é:
http://tratamentodadepressao.org/

sábado, 8 de maio de 2010

... SOU MAX



- Eu não sou rei, nem viking, nem nada.
- Mas o que você é então?
- ... ... ... Sou Max.
- Bem, não é grande coisa, não é mesmo?

O garoto Max conversa com seu monstruoso alter ego Carol em Onde Vivem os Monstros.

Passar por um momento de auto descoberta não é coisa somente para infância e adolescência. Pode ser muito revelador – e muito doloroso também – já na idade adulta.

Não sei ao certo se o processo depressivo pelo que passei tem a ver com isso, ou se passei por isso durante o episódio depressivo. Sei lá. Não lembro se estava na descida ou na subida, mas me recordo claramente de estar diante de mim mesmo por diversas vezes num diálogo muito semelhante ao de Max e Carol.

Vi, a certa altura, que eu não era quem imaginava ser ou quem havia planejado ser. Não era “...nem rei, nem viking, nem nada”. Eu era apenas eu mesmo.

Pode parecer ridículo, mas para mim foi um choque de realidade. Foi como se todo o cenário duramente construído ao longo dos anos simplesmente desmoronasse e, de repente, percebesse que na realidade recém percebida as personas cultivadas não mais se encaixassem.
Foi como ficar nu diante de mim mesmo pela primeira vez vendo que não me parecia com o que imaginava. Nem de longe.

O filme citado lá em cima vale a pena. Não se engane: apesar de protagonizado por um garoto e cheio de monstros na tela, não é um filme para crianças. Aliás, grande parte dos adultos também não entenderá bulhufas. Deprimidos compreenderão, tenho certeza.

O garoto Max passa por uma fase de mudanças e revoluções internas, psicoemocionais e, meio que por acidente, acaba fazendo uma viagem interior – para uma ilha onde só aconteceria aquilo que desejasse - na qual convive e confronta as facetas de sua personalidade.

Preste atenção em quem o garoto se liga de imediato, a necessidade de construir um “forte” inexpugnável para viver com “seus amigos” monstros, os diversos diálogos com seus alter egos e, no final...

Bem, está em DVD. Aproveite.



quinta-feira, 6 de maio de 2010

IGNORÂNCIA PODE SER UMA BÊNÇÃO


Suicídio não é querer morrer, é querer desaparecer.

Georges Perros





Um princípio básico da meditação, prática voltada a acalmar a mente, ao menos no Zen, é deixar os pensamentos passarem livremente, sem se ater a eles. Consideram que é impossível simplesmente não pensar em nada, esvaziar a mente como outras escolas pregam e tenho observado que eles parecem ter razão.

Não dá pra simplesmente não pensar em nada, mas é possível não concentrar-se em coisa alguma em especial, apenas deixar fluir os pensamentos até o ponto em que a mente realmente se acalma, o fluxo de frases, sons e imagens diminui como se uma tempestade se transformasse num lago calmo e profundo.

Mas e as emoções? Tenho dúvidas de que controlando pensamentos conseguimos controlar as emoções, os sentimentos, principalmente em nosso caso, deprimidos e distímicos.

O fluxo de sentimentos e emoções no deprimido, ao menos em meu caso nos piores (e diversos) dias, é caótico, tempestuoso, negativo, desesperançoso, angustiante, aflitivo, torturante.

O estômago revira, a cabeça gira, a atenção dispersa, o corpo inteiro dói, falta ar.

Nestes dias não há meditação que dê jeito e por diversas vezes gostaria muito de ter um botão “on/off”. Não que quisesse realmente dar cabo à minha vida, mas me desligar temporariamente, tirar uma folga de mim mesmo.

Por duas vezes tentei fazer uma “farmacinha” com tudo o que achei de remédios em casa. Leigo no assunto, separei os que achei que davam sono, principalmente anti histamínicos, antipiréticos e analgésicos com dipirona e tramadol. Peguei dois ou três comprimidos de cada e tomei com uma farta dose de uísque sem gelo num gole só.

Consegui apenas uma dor de cabeça daquelas...

O suicídio é tratado por muitos como "a saída mais fácil", "a fuga dos imbecis" ou "a saída do covarde". Duvido que um destes já tenha passado realmente por uma depressão. Como dizia Francesco Orestano, "o suicídio demonstra que na vida há males maiores que a morte".

Tenho medo de ficar paralítico, cego, surdo, acabar minha vida num banco de praça como morador de rua, mas morrer...

Dia desses me chega a notícia de que um colega de trabalho de minha mulher estava internado, intubado, em coma devido a uma overdose de antidepressivos.

Fico sabendo isso só agora que meu remédio acabou e resolvi tentar seguir adiante sem ele.

Puxa, se eu soubesse antes...

terça-feira, 27 de abril de 2010

EFEITOS COLATERAIS

I'm freaking out
So, where am I now?
Upside down
And I can't stop it now
It can't stop me now
oooh Oooooh Oooohhh

I - I'll get by
I - I'll survive

Alice - Avril Lavigne



Na Folha de São Paulo dia desses pude ler artigo sobre os efeitos colaterais dos medicamentos antidepressivos e como boa parte dos profissionais de saúde dá pouca importância a eles.

Havendo certa quantidade de medicamentos de eficácia semelhante, resta ao paciente escolher qual efeito colateral é mais suportável. Como a decisão por um ou outro medicamento é baseada apenas na anamnese, na conversa com o psiquiatra, pois os níveis de serotonina em seu cérebro não podem ser medidos em laboratório, em muitos casos é necessário ajustes da dose ou troca de remédio.

Digo isso por experiência própria. No início de meu tratamento me senti bem com o primeiro remédio, bem mesmo... Até que minha esposa me alertou: eu parecia um zumbi, ficava vendo TV quase sem piscar. Era verdade, eu parecia estar meio viajandão. Isso sem falar nos problemas na “hora H”.

Aumento de peso, dores de cabeça, tremores e diversos outros são efeitos colaterais amplamente relacionados aos antidepressivos, mas há um pouco explorado: a perda do mojo.

Um efeito colateral não dos antidepressivos mas da depressão é ter uma visão mais aguda dos fatos, das coisas, da vida. É experimentar sentimentos que, apesar de torturantes, antes desconhecia. É ter acesso ao fundo da alma. É vivenciar um conflito constante com a realidade à sua volta.

E, assim, com sorte se tiver uma queda para escrever, trazer à tona palavras cheias de sentimentos.

Os medicamentos antidepressivos acabam com isso, tiram de você aquele “talento” para ver as coisas de modo diferente da maioria, eliminam ou diminuem drasticamente seu conflito com a realidade. Psicológica e emocionalmente, sofre-se menos, passa a aceitar o mundo à sua volta com menos revolta, com menos angústia.

Ao longo do tempo percebi – e admito que pode ser efeito de atenção seletiva, mas vá lá – que sou mais crítico, mais mordaz e criativo quando não estou tomando nada. Sob efeito de comprimidos, as coisas ficam razoavelmente numa boa, perco a vontade de criticar, perco o senso de observação aguda.

Não que me transforme num zumbi, longe disso mas, numa comparação um tanto exagerada, diria que tomar antidepressivos, em alguns casos, é como decidir pela pílula azul e voltar a viver confortavelmente na Matrix.

Será que Neo foi um idiota por escolher encarar a realidade nua e crua?

terça-feira, 23 de março de 2010

A VIDA NÃO IMITA A ARTE...

Hold me now
I'm six feet from the edge and I'm thinking
Maybe six feet
Ain't so far down
I'm so far down
Creed


...Nem a arte imita a vida. Filmes em geral mostram o clichê da redenção, por exemplo, quando o cidadão comum que entra num inferno, passa as maiores agruras e no final tudo acaba bem.

Bonito isso... Mas não é verdade, é só um filme. Na vida real parece não haver redenção no final, aquele desfecho em que o personagem termina abraçando alguém, beijando ou sorrindo feliz com aquela expressão de “enfim, acabou” e, óbvio, tudo fica numa boa.

Na vida real, imagino que na maior parte das vezes, não há final feliz. Há apenas o final possível, que quase nunca é o que gostaríamos mas nos conformamos pois “tudo poderia ser pior”. Filmes não dariam boas bilheterias se retratassem a verdade.

Neles, Hollywood gosta de mostrar que a vida tem altos e baixos mas sempre termina no “altos”. Não, não termina. O filme é que termina, pois por algum motivo que desconheço estipularam que 80 minutos é o ideal para se contar uma estória. Eventualmente um pouco mais, como em Avatar.

Muitas vezes a vida real não tem altos e baixos, mas apenas baixos e baixos. Somos levados a acreditar que não ganhamos sempre, mas é duro quando percebemos que perdemos sempre.
Havia um cara assim. Ele desistira de lutar pois sabia que não havia um grand finale para ele.

Seguia em frente sem saber direito se era covarde demais para dar fim àquela existência medíocre ou se, soterrado no mais profundo de seu ser, havia uma fagulha de esperança que algo mudasse.

Já havia tentado de tudo, entrado em contato com todos e mais alguns, tido diversas ideias, mas sua vida simplesmente patinava.

Anos e anos sem progresso, apenas existindo. Sua angústia existencial era grande. Como gostaria de ser como os animais, que não se preocupam com o futuro, nem com sua passagem por esta vida nem se para ela há ou não um sentido. Apenas vivem. Isso deveria bastar, mas não.


Faltava-lhe o fôlego às vezes, tamanha a aflição. Para tentar não enlouquecer, às vezes caminhava.

Foi quando, tarde da noite andando pela rua, um homem o abordou com uma arma. Disse que ia matá-lo se não entregasse a carteira e o relógio.

Então, depois de muito tempo, ele sorriu.

terça-feira, 16 de março de 2010

INÚTIL


In this proud land we grew up strong
We were wanted all along
I was taught to fight, taught to win
I never thought I could fail

No fight left or so it seems
I am a man whose dreams have all deserted
I've changed my face, I've changed my name
But no one wants you when you lose


Peter Gabriel



O que define uma pessoa inútil?

Bem, como alguém já disse, ninguém é totalmente inútil pois pode ao menos servir de mau exemplo mas, voltando: é razoável a gente se sentir inútil porque não ganha dinheiro?

Parece que sim. Não importa o quanto você faça em casa, o quanto você queime todos os seus neurônios em tentativas frustradas de negócios, se esfole na procura absolutamente infrutífera por emprego, que preste todo o tipo de favores para um monte de gente.

Em nossa sociedade, se você “não faz dinheiro” você é um inútil.

Independente de longuíssimas elucubrações sobre o formato social no qual estamos vivendo, acho que isso começa lá atrás, quando ainda somos crianças e, mal sabendo falar direito, já temos de responder à pergunta “o que você quer ser quando crescer?”.

Lembro que queria ser astronauta. Não tinha a menor ideia do que era ser um astronauta (a maior parte das pessoas adultas ainda não sabe), mas queria ser um. Por quê? Vai saber...

E porque temos de “ser algo”, sendo esse algo uma profissão? Parece uma pergunta idiota, mas pense, saia da superfície, prenda o ar e mergulhe fundo nessa questão: uma profissão ou atividade econômica é o que define a pessoa em nossa sociedade. Carlos "é" médico, Eduardo "é" dentista, Márcia "é" analista de sistemas... Todo mundo “é” uma profissão, ninguém "é" somente gente, somente uma pessoa, um humano, uma unidade carbono do quarto planeta do sistema solar.

A gente deveria ser livre para, apenas, sermos nós mesmos. A resposta “correta” para tal pergunta deveria ser, já em nossa tenra infância (se eu tivesse filhos ensinaria essa) “eu não quero ser, eu já sou: eu sou eu mesmo”.

A pergunta é que está errada. O certo é “o que você vai fazer pra ganhar dinheiro e se sustentar quando crescer?”, mas alguém, politicamente correto, dirá que isso estressaria a criança. Talvez a pergunta fosse assim antes de resolverem resumi-la.

Pois bem, como não arrumo emprego nem consigo fazer pequenos negócios darem certo, não me sinto à vontade para dizer que sou publicitário. Afinal, essa é apenas minha formação acadêmica. Não me sinto à vontade para dizer que “sou” MBA em marketing, afinal esse foi apenas um curso noturno que fiz sei lá por que.

Então eu sou... O quê?

Minha agonia existencial terminou hoje pela manhã, quando fui fazer a declaração do Imposto de Renda de minha mulher. Descobri ali no programinha do IR uma definição para mim:

- eu sou o código “51 – pessoa absolutamente incapaz”.


terça-feira, 9 de março de 2010

VOCÊ FAZ O QUÊ?...


A inteligência é quase inútil para quem não tem mais nada.
Alexis Carrel



Em se tratando de Depressão, muitos especialistas e estudiosos ainda debatem o que vem primeiro. Não, não se referem ao ovo ou a galinha, mas sim à divisão entre o que é causa e o que é causado pelo estado depressivo.

No meu caso, nem eu mesmo sei apesar de tanto refletir sobre o assunto. Tive um "breakdown", aquele momento em que a derradeira gota faz com que o copo transborde mas, como na metáfora do balão ou bexiga, o último sopro é que a faz estourar mas ele sozinho, sem todos os sopros anteriores, provavelmente não faria mal algum.

Talvez eu precise de mais terapia, mas cansei de olhar pra mim mesmo como alguém que precisa se analisar. Quero ser normal - seja lá o que isso signifique - e seguir adiante.

Mas é duro...

No tal breakdown eu resolvi "promover minha demissão", ou melhor, fiz com que meus superiores ficassem sem saída a não ser me demitir e, desde então, fiquei meio perdido, sem rumo, vida profissional indefinida - ainda, três anos depois...

Dia desses um corretor de imóveis resolveu fazer a pergunta fatídica: "- Você trabalha em quê?...".

Minha mulher disse que fiquei roxo ao responder, em tom baixo e engasgado, que era publicitário. Na verdade, se tivesse respondido a primeira coisa que me veio à cabeça teria dito que sou um inútil mesmo - e estaria dizendo a verdade.

Tempos atrás, no fundo do poço, pensava a mesma coisa mas o pensamento era acompanhado de um terrível sentimento, algo como se tivesse uma bigorna sobre meu peito e nuvens escuras me envolvendo. Agora não mais.

Tenho a clara - e tranquila - convicção de que escorreguei e não consegui me levantar ainda, com a sensação de que aceito o fato de que não dei certo nesa vida e que, ao contrário dos filmes, não há redenção no final.

Que merda...


terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

DEPRESSÃO E O ZEN


Talvez eu e você nunca saiamos totalmente da areia movediça que é o TDM, talvez eu seja deprimido crônico mesmo, ou a depressão deixe sequelas.

A depressão me parece ser como as nuvens: elas se dissipam, mas não desaparecem totalmente. O céu chega a ficar completamente azul, mas elas estão por ali, em algum lugar, se formando, à espreita...

Ditados Zen budistas, os verdadeiros, são ótimos para explicar de modo profundo e sem teoriazações intelectuais coisas extremamente complexas – isso só é possível indo ao âmago das coisas, como o Zen faz tão bem - e eles extrapolam o universo filosófico oriental. Ou então minha imaginação é que é fértil...

Um desses ditados (ou koans) diz:

“Quando você se inicia no Zen, árvores são árvores, montanhas são montanhas.
Quando você estuda o Zen, árvores deixam de ser árvores, montanhas deixam de ser montanhas.
Mas quando você finalmente compreende, árvores são árvores, montanhas são montanhas”.
Talvez eu esteja forçando a barra, mas isso faz muito sentido para mim agora que estou com quase todo o corpo fora do banco de areia movediça da Depressão.

Digo isso de uma forma possivelmente simplista, mas me baseio em tudo pelo que passei e na tonelada de artigos que li.

De modos opostos, Zen e Depressão mudam nossa maneira de ver e sentir o mundo ao redor: o Zen, em geral, leva a uma harmonização com o mundo exterior através do equilíbrio interior. Já a depressão...

Não sou um fanático new age querendo influencia-lo, longe disso, mas tendo recebido alguns comentários e contatos por causa de meus posts, gostaria de dizer uma única coisa a todos que passam pelo que passei: ISSO PASSA.

Sei que, se você está na pior fase, não vai querer acreditar, vai retrucar, contra-argumentar, reclamar, resmungar... Mas quem aqui escreve também já teve crises abismais de angústia existencial e descrença absoluta numa solução que não o fim dessa vida - psicológica e emocional - miserável.

Como saí dessa? Posso dizer que foram as inestimáveis sessões de terapia (saudades da Dra. Carmem...) aliadas à medicação. Parei com ambas há algum tempo, quando decidi que eu teria de ser forte, teria de “andar com minhas próprias pernas”. Em verdade, eu tinha até certo medo de me viciar tanto na terapia quanto na medicação e não mais conseguir ir em frente sem elas.

Eu decidi? A terapia me levou a decidir? O medicamente fez meu cérebro decidir?...

Se eu saí de “onde” estava, você sai também. O importante – difícil, extremamente difícil durante os piores períodos – é saber, não acreditar, mas saber mesmo, que passa. Nada mais verdadeiro que “na vida tudo passa, até a uva passa”.

Me redimindo da piada acima, uma última estorinha Zen:

Um praticante de meditação estava triste, infeliz, pois há tempos vinha se dedicando a meditação sem nunca conseguir praticar uma boa meditação, sentia-se sempre desconfortável, agitado interiormente.

Desanimado com sua meditação, resolveu ir a um templo procurar a ajuda de um mestre Zen.

Chegando lá, encontrou o mestre varrendo a entrada do templo, com movimentos precisos, leves e harmoniosos.

-“Minha prática de meditação não está boa; muitas vezes me distraio, meu corpo me incomoda, minha mente se agita...” explicou o praticante.

“Tudo bem, isso vai passar ” - disse o mestre, sem olhar para ele e sem parar de varrer a entrada do templo, com movimentos precisos, leves e harmoniosos

Sem saber o que fazer, o praticante foi embora.

Algum tempo depois o praticante voltou ao templo e foi procurar o mestre.

Encontrou o mestre cuidando das flores do jardim, com movimentos precisos , leves e harmoniosos.

“Minha prática de meditação está maravilhosa; eu me sinto consciente, meu corpo não me incomoda, minha mente está serena “ - disse com alegria e felicidade o praticante.

“Tudo bem, isso também vai passar” - disse o mestre, sem olhar para ele e sem parar de cuidar das flores do jardim, com movimentos precisos, leves e harmoniosos.

Entendeu?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

SOLIDÃO NO CARNAVAL


"Por mais que a alma lide, não rompe a sua solidão, e caminha com ela, como formiga num deserto perdido."

Gustave Flaubert


Assim como a Lua vem depois do Sol e a chuva vem depois das 16h30, aí vem mais um Carnaval.
Como já escrevi anteriormente, meio que “por decreto” a multidão tupiniquim, até aquela de gravatas, ternos, taileurs e escarpins deixa-os de lado para entrar num fantasioso reino de vale tudo.

Muitos dos que passaram o ano todo com comedimento, pessoas até pudicas, de repente, como por encanto, se transformam: homens vestem-se de mulheres, mulheres vestem-se de coisa nenhuma e todos ficam pulando, suando, bebendo, lascivos, sedentos...

Porque não podemos ser lascivos e sedentos o ano todo, mesmo usando ternos e taileurs? Porque é preciso uma festa nacional para se mostrar quem realmente é por baixo da rala camada de verniz? Se Carnaval é uma oportunidade de sexo fácil para muitos, porque esperar o ano todo por esses quatro dias?

Fiquem disponíveis à esbórnia fulltime... Qual o problema? Somos todos adultos, pagamos nossas contas...

No Carnaval todos pulam alegres e felizes. Sorry, não se fica alegre e feliz por imposição de uma data específica. Isso tem outro nome...

E, mágica, todos voltam àquela vidinha mais ou menos na quarta à tarde ou quinta-feira pela manhã.

Não quero escrever uma (mais uma) crítica ao Carnaval. Afinal, analisando mais profundamente, não é o evento anual nem o comportamento das pessoas que me incomoda, mas sim minha (suposta?) solidão.

Não, não me sinto só por não ir pular, não ficar bêbado e suando em bicas num salão ou avenida inundada por barulho (aquilo é música?) ensurdecedor, apertado como sardinha em meio à multidão correndo o risco de ser atropelado por um caminhão de trio elétrico.

Sinto-me só por não ter com quem compartilhar essa minha aversão a tudo isso.

Lembro da época em que minha irmã, dois anos mais nova, saía com a turma de amigos e amigas, primos e primas, todos alegres para a matinê no clube. Eu, criança, já não via sentido em tudo aquilo e ficava sozinho com a Coleção Conhecer, lendo sobre os vikings, sobre as Cruzadas, sobre a chegada à Lua, sobre a vida marinha...

Isso permaneceu até os dias de hoje e, de certo modo, por não haver mais ninguém como eu por perto, fui levado a acreditar que eu era esquisito (ou chato, ou doente, ou maluco, sei lá).

Como seria bom ter tido por perto alguém que não se importasse com a alucinação que toma quase que a todos nessa época, que não ficasse aflito ou aflita por estar ali sentado “enquanto todo mundo aproveita” (?!?), mas que gostasse de ler, como eu, que apreciasse o silêncio, alguém com quem pudesse trocar ideias, filosofar, deixar a mente viajar, falar em voz baixa, contemplando possibilidades imaginárias e, quem sabe, supostamente perceber juntos alguma verdade até então encoberta.

Pessoas assim ficam bem em personagens de filmes e seriados. Duvido que Grisson, ex-CSI, gostasse de pular Carnaval. Mas na vida real, nem o mais simpático personagem tem seguidores quando aquilo que é seu charme vai contra o que a maioria pensa ser normal e está louca pra aproveitar.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

CAFÉ CONTRA A DEPRESSÃO E SUICÍDIO

Fui uma criança muito, mas muito imaginativa, criativa e sonhadora. De uns anos pra cá fiquei meio cético, meio racional demais, mas não consigo deixar de imaginar o tamanho da coincidência depois que li um artigo dizendo que o café, nosso santo cafezinho, pode ter efeito preventivo /profilático contra a depressão.

Os tais estudos chegaram à conclusão de que "a incidência de distimia e de depressão é menor entre adultos e crianças que tomam 4 xícaras de café por dia em comparação aos que não tomam ou tomam menos que isso".

Segundo o artigo, "o consumo diário de 4 xícaras de café pode ajudar a prevenir a depressão e o suicídio, segundo estudos efetuados em mais de 200.000 pessoas por um período de dez anos por dois grandes centros de pesquisa nos Estados Unidos (Califórnia e Boston), dados estes obtidos pela equipe do autor a partir dos anos 80 entre jovens escolares brasileiros. O fato do café puro ou com leite na dose de 3 a 4 xícaras diárias ser um agente PREVENTIVO da depressão bem como a possibilidade de um fitoterápico de café ser um agente CURATIVO para a depressão coloca o consumo de café e seus subprodutos como prioridade para a ciência médica que visa combater o mal do século, a depressão".

Qual é a coincidência? Eu sou tão fanático por café que até resolvi chamar meu outro blog de "Pausa prum Café".

Um blog voltado à depressão, outro nem tanto ao café, mas tendo-o como tema e título. Estranhas coincidências do destino ou, como diz Leonard Mlodinow em O Andar do Bêbado, apenas nossa humana e confusa mente tentando encontrar significado em coisas não relacionadas?

Pelo sim, pelo não, vou lá agora preparar mais um cafezinho...


Os tais estudos:

- KLATSKY, A.L. et al. "Coffee, Tea, and Mortality," ANN. EPIDEMIOL., 1993 (3), pp. 375-381.

- KAWACHI,I. et.al. "A prospective study of coffee drinking and suicide in women," ARCH. INTERN. MED., 1996 , 11 (156), pp 521-525.

- LIMA, D.R. : CAFÉ, DEPRESSÃO e ALCOOLISMO. - 1a parte . Jornal da ABIC, VIII, 97, 26, 1999

- LIMA,D.R. CAFÉ, DEPRESSÃO e ALCOOLISMO - 2a parte . Jornal da ABIC, VIII, 98, 24 , 1999

- LIMA, D. R. CUIDADO!!! O POPULAR CAFÉ E A PODEROSA MULHER... PODEM FAZER BEM À SAÚDE. Petrópolis: Medikka Ed. Científica, 2001. 111 p.

- LIMA, D. R. MANUAL DE FARMACOLOGIA CLÍNICA, TERAPÊUTICA E TOXICOLOGIA. Rio de Janeiro: Medsi Ed. Científica, 2003. 3 Volumes, 3.456 p.

- FLORES, G., ANDRADE, F. & LIMA D.R.: Can coffee help fighting the drug problem: preliminary results of the Brazilian Youth Drug Study (BYDS). ACTA PHARMACOLOGICA SINICA, Shangai, 2000, 21 (12): pp. 1059-1070.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

AVATAR, RED HOT CHILY PEPPERS, CARROS DE QUATRO PORTAS, SMARTPHONES E A DEPRESSÃO


Para um gênio nada é mais honroso que o desprezo de um mundo idiota.

Hunaldo




Quando começaram a anunciar a estréia de Avatar, imediatamente procurei ler a respeito e comentei com ela que provavelmente seria um bom filme para se ver no cinema. Não por seu enredo, mas pelo espetáculo visual. Ela nem me deixou acabar o comentário e já foi retrucando que estamos velhos demais para “ir ver filminhos de monstrinhos azuis”.

Mas então, duas semanas após a estréia do filme, chega ela dizendo que tinha um filme que ela queria assistir. Adivinhe qual?...

Disse que uma de suas colegas de trabalho foi ver e achou o máximo...

Pois é: quando eu falo, bullshit. Quando alguém do trabalho fala, nossa, o que estamos esperando!...

E isso vem de longe.

Quando o Red Hot Chilli Peppers começou a ser mais noticiado por aqui – ou ao menos quando eu percebi sua existência – comentei que era uma banda legal. Ela achou barulhenta e infantil para, tempo depois, voltar dizendo que ouvira dizer lá no trabalho eram muito bons. E jurava de pés juntos que eu nunca havia falado sobre eles.

Quando os primeiros carros com quatro portas começaram a tomar as ruas da cidade eu sugeri que quando fossemos trocar o nosso o fizéssemos por um desses. Imagina, disse ela, carro quatro portas é coisa de taxista. Nem preciso dizer que, quando suas colegas adquiriram automóveis com quatro entradas ela também quis um.

Ela teimou, teimou, teimou e resistiu duramente aos meus comentários sobre as facilidades dos smartphones com seus teclados e aplicativos. Celular tinha de ser apenas telefone, pra que mais? Assim que uma colega apareceu com um ela ficou maravilhada e tivemos de ir trocar seu aparelho naquele mesmo fim de semana.

Não tenho crédito com ela. Seu desprezo e rejeição por meus pensamentos, idéias e opiniões são absolutos, sejam sobre coisas corriqueiras do dia-a-dia, sejam sobre elaboradas questões existenciais.

Quem dera me faltasse amor próprio o suficiente para não me importar com o desprezo dos outros, como dizia Luc de Clapiers.

Consegue imaginar o que é tentar escapar da depressão com alguém fazendo isso com você? Parece pouco para que tem a auto estima em dia, mas lembre: para um deprimido isso é o mesmo que ser esfolado vivo.

Certa vez, numa das sessões de terapia comentei que talvez precisasse ir morar sozinho por uns tempos ou ir ficar só, num lugar qualquer para que, sem influências exteriores, pudesse me reconstruir.

A terapeuta pediu que explicasse melhor e eu me saí com essa: imagine um atleta em treinamento para uma competição, digamos, um corredor de maratona. Não que ele precise de isolamento para se dedicar ao treinamento, mas dentro de seus tênis não pode haver uma daquelas pedrinhas que teimam em entrar neles de vez em quando.

Um atleta que tentasse treinar com essa pedrinha dentro do tênis certamente não faria bons treinos e muito menos desenvolveria performance para competir e vencer.

Em verdade o que eu queria dizer era que precisava de um pouco de distância de minha realidade contaminada, viciada, e iniciar uma nova ou, melhor dizendo, ficar um tempo em zona neutra para que meu “eu” pudesse se refazer dos estragos da depressão, como alguém com o sistema imunológico fragilizado que precisa de quarto isolado até que seu organismo seja novamente capaz de combater os ataques de intrusos.

Todas essas voltas tinham o intuito de dizer que precisava tirar umas férias de minha esposa. Como escrevi ali nos Drops Amargos sobre ela ter começado a jogar água e sabão nos degraus de minha auto estima, durante a pior fase de minha depressão ela não foi uma das melhores pessoas para se ter ao lado, muito pelo contrário.

Com a auto estima totalmente destruída, em diversos episódios ela disse coisas que eu jamais falaria a alguém, muito menos alguém no estado em que me encontrava. Ninguém jamais diria a um paraplégico ou tuberculoso que ele é um inútil por não correr uma maratona, ou a um obeso mórbido que ele é um vagabundo relaxado por estar daquele jeito, não criticaria um leproso por sua aparência ou diria “bem feito” a um aidético...

Mas a depressão, como já escrevi por diversas vezes, não é “aparente”. As pessoas não percebem “uma doença” em você, vêem apenas a superfície e creditam seu comportamento a falhas em seu caráter, preguiça, indolência, incompetência, chatice.

O pior da crise passou e, no relacionamento, ficou mal disfarçada mágoa, que para muitos é a raiva dos fracos.

Você, deprimido, tem também alguém em seu “encalço”? Como se saiu dessa?

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

QUEM ME ROUBOU DE MIM ?


Tempos atrás entrei num grupo de discussão para Deprimidos. Pensava encontrar discussões sobre o problema, relatos de casos, coisas assim, mas não.

Estava mais para um muro virtual de lamentações e, pior, uma reunião de crentes numa profusão de referências bíblicas e mensagens adocicadas. Uma pena.

Eu sou ateu mais ou menos militante e tenho pavor de auto ajuda, como alguns já podem ter notado, principalmente quando há tendências religiosas em suas mensagens. Mas um dia todo mundo tropeça.

Desatento, distraído e desarmado durante as férias, passeando por um café deparei-me com um livro cujo título, de imediato, fez-me pensar no cerne da questão que conversava com minha terapeuta: "Quem me roubou de mim?".

Ao ver que o livro tratava do esquecimento de significados que nos tornam quem somos, a "perda do eu", não tive dúvida de que o assunto me dizia respeito. Torci o nariz ao ver que o autor é padre e, sinceramente, pulei as duas ou três páginas nas quais ele mergulha em questões religiosas mas, no geral, o livro vale a pena se você, como eu, um certo dia se viu perdido sem saber quem exatamente era, do que gostava, o que queria, fragilizado e oprimido diante das demandas "do outro".

Um trecho:

"... Uma mesa é uma mesa e não pode ser uma porta. Pronto, o conceito identificou, diferenciou, limitou de forma positiva. Ninguém poderá condenar a mesa por não ser porta. Ela já está no limite do seu conceito. No mundo das pessoas, é a mesma coisa. Nossa identidade nos limita, não para nos empobrecer, mas, ao contrário, para nos favorecer o crescimento. Quem sabe bem o que é e o que não é terá mais facilidade de explorar suas possibilidades, uma vez que os limites já estão apreendidos também. Apreender e conhecer os limites que se tem é um jeito interessante de potencializar as qualidades que nos são próprias".

No livro, o autor faz uma metáfora sobre a "perda do eu" com o crime de sequestro. Bem interessante, ele é fininho e dá pra ler em uma ou duas tardes.

Um link com um texto mais longo:
http://veja.abril.com.br/livros_mais_vendidos/trechos/quem-me-roubou-de-mim.html

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O QUE SOU EU, O QUE É DEPRESSÃO?


I hurt mysef today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing was real

Johnny Cash


Por diversas vezes numa mesma semana, parece que minha vida não tem mais jeito, nada mais vai dar certo. Horas ou dias depois, uma fagulha de esperança me leva a tocar diversos projetos simultaneamente.


Tem dias que me sinto um traste, o pior dos piores, um inútil que serve apenas como aviso aos demais. Noutros, percebo em mim até algum talento que poderia ser lapidado.

Às vezes “sei” que vou acabar minha vida como um morador de rua, num banco de praça. Em seguida, como um príncipe que jamais perde a realeza, me pego analisando possibilidades futuras.

Meu casamento parece já ter terminado e, como um morto vivo, continua em pé apenas para devorar nosso cérebro. Tenho certeza de que minha esposa está não só farta de mim, mas me odeia. Em seguida, como saído de um pesadelo, tudo parece caminhar às maravilhas, com abraços, beijos e presentes.

Falta memória e esqueço compromissos, nomes, algo que me contaram pouco tempo atrás. E me lembro de coisas que ninguém mais se lembra, letras de músicas, cenas de filmes, pequenos detalhes que muitos nem haviam percebido.

Faço compras de supermercado, levo as cachorrinhas passear, vou ao banco, levo o sobrinho na escola, passo na locadora de filmes, na padaria, vou buscar um vaso novo para o jardim, vou ao banco, ao correio, pego o sobrinho na escola, levo as cachorrinhas ao petshop para o banho... Tudo no mesmo dia ou no seguinte ao que sentia total falta energia para sair da cama ou para levantar do sofá para ir dormir.

Uma angústia inexplicável dá lugar a uma paz extraordinária, uma tristeza que até dói é substituída por um vago sentimento de harmonia, o humor azedo e pessimista é trocado por outro, leve e alegre.

E eu me pergunto o tempo todo: eu sou assim? Será que sempre fui assim e não percebia? Ou é a depressão que faz com que meu comportamento seja uma montanha russa? Ou é efeito da medicação lutando contra a depressão dentro de meu cérebro?

Até onde, nesses picos e abismos, estou “eu” ou está a depressão?

Devo assumir esses momentos díspares como minha personalidade ou desculpar-me por estar passando por um TDM? Ou não é mais possível desamalgamar um do outro, tendo eu então tornado-me isso que sou hoje? Digo aos colegas que sou assim mesmo, esquecido, ou desculpo-me usando a depressão como culpada por ter deixado passar um compromisso, aniversário ou outro qualquer?

Acho que nunca vou saber.

sábado, 5 de dezembro de 2009

DEPRESSÃO - O MELHOR REMÉDIO


Pesquisa é o processo de entrar em vielas para ver se elas são becos sem saída.
Marston Bates


Eu tenho uma pequena coleção de textos sobre o tema desse blog e só agora me lembrei de compartilhar com você que vem até aqui ler meus posts.

Talvez você já os conheça, mas acredito que possam ser úteis a alguém que passa pelo mesmo que passamos.

Procurei artigos que considerei ou me pareciam "sérios". Portanto não encontrará aqui aquelas pérolas sobre "a cura" da depressão, nem apresentações ppt com bebês sorrindo, cães dormindo ou crendices diversas.

Estão ali, coluna à direita. Se tiver conhecimento de algum bom artigo, comparti-lhe.

Eu acredito que o melhor remédio para a depressão é conhecê-la, entendê-la, saber como nos afeta, porque nos afeta. Não que isso vá curar-me, mas faz com que eu me sinta menos mal. Experimente e me conte depois.

Ah, mais uma coisa: algumas pessoas tem feito comentários aqui no Crônicas e eu gostaria de respondê-los ou comentá-los, mas não consigo se os deixam como "anonimous". Acho que se se identificassem o blog ficaria mais dinâmico, uma troca de experiências, uma conversa entre iguais.

É isso aí.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

FIZ NADA...

"...Será que o Diabo fez o mundo enquanto Deus dormia?..."
Tom Waits


Era final de 2006, mais exatamente 20 de dezembro, quando fui demitido da empresa onde trabalhava desde apenas janeiro do mesmo ano.

Não foi algo unilateral nem inesperado. Era um publicitário tentando atuar como técnico atuarial numa empresa de planos de saúde. Não podia dar certo mesmo. Falei com os superiores, pedi que me mudassem de área, mas havia empecilhos salariais e políticos. Resultado: rua.

Mas eu já vinha apresentando há mais de dois anos um comportamento definido por colegas como sorumbático. Acho que tudo começou a degringolar dois anos antes, na empresa em que trabalhei antes dessa em que fui demitido. Nela eu percebi que era o patinho feio, um peixe fora d’água, pois já estava longe de meu habitat natural. Era uma empresa de seguros, cheia de administradores, advogados, matemáticos, técnicos atuariais. Terreno hostil para um publicitário.

No tal fatídico mês de dezembro eu sentia dores terríveis nas costas, tive de ficar uma semana em repouso, faltando do trabalho. Pouco antes disso, peguei uma gripe como nunca havia tido até então. Também faltei uns dias do trabalho. Trabalhei quase nada neste mês.

Assim, entrei em 2007 deprimido, desempregado e sem um plano B. Que tivesse! A tormenta mental que o estado depressivo causa me impossibilitaria de enxergar possibilidades, oportunidades, planejar qualquer coisa teria sido extremamente penoso.

A depressão tomou conta de meu espírito, de minha alma, de minha mente, de meu corpo.

No supermercado, por duas vezes, ao ver aposentados e pessoas idosas fazendo suas compras à minha volta senti as trevas me abraçarem, o carrinho parecia pesar uma tonelada apesar de ainda vazio e tudo o que eu queria era que apagassem a luz para que eu pudesse deitar e ficar ali, no chão, no escuro, no silêncio, para sempre. Com dificuldade para respirar e a força da gravidade elevada à milésima potência sobre meus ombros, o esforço para continuar a empurrar o carrinho, fazer as compras e me comportar como uma pessoa normal, sã, quase me levou às lágrimas, o que me faria sentir ainda mais ridículo.

Em outras duas ou três situações, indo a algum compromisso, desisti no meio do caminho tamanha era minha inexplicável aflição. Faltava ar, a cabeça girava, confusa. Eu parava o carro em ruas escuras, deitava o banco, fechava os vidros, os olhos e ficava por horas em silêncio. Só voltava pra casa quando era mais ou menos a hora em que deveria chegar, evitando explicações por chegar cedo.

Por diversas vezes a agonia era tão sufocante que pensei em sumir, largar tudo, sair pelo mundo deixando essa vida para trás, mais ou menos como o garoto de Natureza Selvagem. Estive muito, muito perto de fazer isso.Acho que se fosse mais jovem teria feito, mas os anos vividos trouxeram mais que duas hérnias de disco... Sabia que essas crises passavam e a idéia ia embora, temporariamente.

Mesmo assim, num esforço hercúleo, comecei a prestar pequenos serviços de marketing. Fiz um folder aqui, um folheto ali, criei um logotipo acolá.

- diagramei livro de normas da Agência Nacional de Saúde;
- criei logotipo para uma consultoria jurídica, além de cartão de visita e papel carta;
- o mesmo para uma consultoria de seguros;
- criei logotipo para empresa do marido de uma ex-colega;
- produzi um folder e apresentação ppt para uma empresa de tecnologia do marido de outra colega;
- prestei serviços de marketing à fábrica de meu pai, criando folhetos, web site, rótulos...;
- acabei indo trabalhar na fábrica, viajando 220km três vezes por semana para ir e voltar;
- ilustrei meu primeiro livro, escrito há uma década;
- escrevi e comecei a ilustrar o segundo;
- escrevi o terceiro;
- mantive ativo o blog Pausa prum Café, com alguns textos bastante elogiados pelos poucos que o visitam;
- comecei e mantive outro blog, o Crônicas de um Deprimido Crônico, que tem até seguidores;
- escrevi textos diversos e distribuí em vários sites na web;
- participei de concurso de criação de mascote para web site vegetariano;
- tentei a idéia de produzir camisetas focando os direitos animais e posse responsável;
- comecei a prestar serviço a duas novas corretoras, criando folder, folhetos, mala-direta, peças promocionais/institucionais...
- aprendi, me virando sozinho e tateando no escuro, a mexer com softwares profissionais como Photoshop, Painter, Dreamweaver, Publisher;
- tornei-me um “faz-tudo” em casa, troquei todas as tomadas e interruptores, luminárias, mudei móveis de lugar, montei móveis novos...

...E algumas outras coisas que não me lembro agora.

Nesse meio tempo, cursei um MBA em marketing e meu TCC foi a melhor nota da classe, fiz religiosamente as compras semanais em supermercado sem esquecer das pequenas urgências resolvidas no varejão ou padarias e encomendas de congelados.

Passeei diariamente, chovesse ou fizesse sol escaldante, com minhas duas cachorrinhas, além de levá-las pontualmente ao seu banho semanal em pet shop e manter a higiene em casa quando a coisa desanda, principalmente depois que adotamos duas felinas.

Mantive as contas pagas dentro de seus prazos.

Li, por baixo, dúzia e meia de livros, boa parte deles sobre depressão, ceticismo em relação à fé e religião, ética, direitos animais e uns poucos de humor.

Não consegui arrumar emprego, parei de tentar e essas minhas atividades profissionais, desenvolvidas num pequeno home Office que montei num quarto, me renderam pouco ou nenhum dinheiro, pois meus clientes são colegas com suas empresas iniciando atividades, ou seja, sem faturamento. Ficou a promessa de que um dia me pagam.

Na pior das hipóteses, aprendi muito e mantive a cabeça ocupada e produtiva.

Aí, três anos depois, agora sentindo que o fundo do poço está um pouco mais longe lá em baixo, minha mulher reclama:

- Pô, você fica aí sem fazer nada!...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

AUTO-AJUDA NÃO AUXILIA QUEM REALMENTE PRECISA


Como é que algo que é vendido a milhões de pessoas pode se chamar "O SEGREDO" ?

eu mesmo


A capa da Veja desta semana apresenta matéria sobre a praga da auto-ajuda, que consome espaço nas prateleiras das livrarias, e provavelmente um monte de gente vai encher o peito pra falar bem desse troço, mais ou menos assim: “Tá vendo? Até saiu na capa da Veja!...” como se isso tivesse algum mérito ou tornasse a coisa séria ou científica.

Então, antes que você vá à livraria mais próxima gastar sua grana e deixar os autores ainda mais milionários, pense mais uma vez...

Repetir frases positivas como "Sou uma pessoa querida" ou "Vou ter sucesso" faz com que algumas pessoas se sintam piores em relação a si mesmas, ao invés de elevar a autoestima, destaca um estudo divulgado nos Estados Unidos.

"Desde pelo menos a publicação do livro de Norman Vincent Peale 'O poder do pensamento positivo' (1952), os meios de comunicação têm estimulado as pessoas a dizer coisas favoráveis sobre si mesmas", afirma o estudo coordenado por psicólogos canadenses, publicado na revista Psychological Science.

O estudo cita uma revista popular de autoajuda que recomenda aos leitores: "Testem recitar: 'Sou poderoso, sou forte e nada neste mundo pode me deter'". Mas o conselho não funciona para todos.

As frases positivas sobre si mesmo fazem com que as pessoas que já se sentem mal em relação a si mesmas não fiquem melhor, e sim pior, conclui o estudo coordenado pelos psicólogos Joanne Wood e John Lee, da Universidade de Waterloo, e Elaine Perunovic, da Universidade de New Brunswick.

No estudo, os especialistas pediram a pessoas com baixa e alta autoestima que repetissem a frase "Sou uma pessoa querida", para em seguida medir os estados de ânimo e os sentimentos dos participantes. Eles detectaram que os indivíduos que começaram o estudo com baixa autoestima se sentiram piores depois de repetir a frase.

"Penso que o que acontece é que quando uma pessoa com baixa autoestima repete pensamentos positivos, provavelmente tem pensamentos contraditórios", declarou Wood à AFP.

"Portanto, se afirmam 'Sou uma pessoa querida', podem estar pensando 'Bem, nem sempre sou querido' ou 'Não sou querido neste sentido' e estes pensamentos contraditórios podem fazer transbordar os pensamentos positivos", explicou.

Apesar dos pensamentos positivos parecerem efetivos quando integram uma terapia mais amplia, sozinhos tendem a reverter o efeito que supostamente devem ter, segundo Wood.
O psicólogo afirma que os livros, revistas e programas de TV de autoajuda devem para de dizer às pessoas que apenas a repretição de um mantra positivo levantará a autoestima. "É frustrante para as pessoas quando tentam e não funciona".

Os psicólogos sugerem que pensamentos positivos fora da realidade, como “eu me aceito completamente”, podem causar pensamentos contraditórios em pessoas com a auto-estima baixa. Estes pensamentos negativos podem, assim, sobrepor os pensamentos positivos.

Os pesquisadores concluem no estudo que “A repetição de frases auto-afirmativas podem beneficiar algumas pessoas, mas produzem efeitos negativos naquelas pessoas que mais precisam do benefício”. [Science Daily]

ONDE OS TRISTES NÃO TEM VEZ



Monstros são reais e fantasmas são reais também.
Vivem dentro de nós e, às vezes, vencem"

Stephen King


Alguém chega e conta, em tom elogioso, como fulano é forte, como parece que ele está bem e sorrindo apesar da enorme cirurgia pela qual passou, está pra cima, alto astral...


Poucos dias antes, outra pessoa me conta como beltrano é um cara positivo, pois passou por uma químio violenta para enfrentar seu câncer, chegou a prever poucas semana de vida, mas sempre de bom humor, nunca deixou a bola cair e agora está aí, feliz...

Essa é uma das maiores perversidades da depressão: sobre sua doença não há nada visível e palpável em você, nada que mostre aos demais o quanto você está sofrendo, nenhuma cicatriz, nenhuma bereba, quase nada diferente em sua aparência denuncia quanta dor emocional, quanta agonia espiritual, quanta angústia existencial, quanta dificuldade nas menores coisas você está sentindo.

Pelo contrário: as pessoas percebem apenas a superfície e logo tratam de julgá-lo um lerdo, um boçal de ânimo azedo, um vagabundo que não levanta do sofá pra nada, alguém que está de frescura.

Não é questão de receber cafuné – o que seria ótimo – nem confetes, nem que sejam totalmente complacentes com você e fiquem dizendo o tempo todo “coitadinho, coitadinho”, mas que reconheçam que algo não está bem com você e tentem, ao menos tentem tratá-lo adequadamente e não o acusem jocosamente de estar fazendo manha, se escondendo. Isso só aumenta a culpa que persegue o deprimido.

Oras, dirão, mas fulano teve câncer e fez uma quimioterapia que quase o deixou um lixo e fizeram um corte “desse tamanho” em beltrano e nenhum deles ficou aí desanimado, pra baixo, macambúzio. Nenhum deles fez esse tipo sofredor como você...

Mas cânceres e cirurgias, por mais horríveis que sejam, são problemas que podem levar qualquer um à depressão e a um comportamento tristonho, sorumbático, mas não necessariamente. Nesses casos, os problemas podem levar à tristeza, mas no caso da depressão é o contrário: é a tristeza que se instala, a tristeza É a doença, e, muitas vezes, não há aparentemente – apenas superficial e aparentemente - nada que a cause, nenhum corte, nenhum tratamento que faça cair seus cabelos. A tristeza profunda é o problema em si.

É ela que causa a lentidão, as dores inespecíficas por todo o corpo, a dificuldade em dar um passo e muitas vezes um sorriso, a vontade de ficar na cama, a torcida por amanhecer chovendo.

Mas ninguém parece entender isso. Não entendem também que os heróicos que passaram por cânceres e cirurgias com um sorriso sofreram sim, mas somente para si mesmos, talvez por acreditar que negando a situação em que estavam ela passaria mais rápido ou não a sentiriam tanto, talvez com vergonha de parecer um coitado para as pessoas. Mas eles sofreram sim, e muito, só não precisaram que ninguém fizesse algum mínimo esforço para entender pelo que estavam passando.

Já até briguei com familiares. Se não compreendem meu problema, leiam, estudem, demonstrem algum interesse. Há excelentes artigos na web.

Aí alguém lembra que, dia desses, leu alguma coisa sobre florais para gente deprimida...

E depois não sabem por que deprimidos se afastam das pessoas.

O link abaixo leva a um teste rápido para ver como anda sua deprê. Não sei de sua validade científica, mas aí vai:
http://depressao.sites.uol.com.br/

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O MARTELO QUE QUERIA SER... MARTELO!



HÁ MUITAS FRASES ENGRANDECEDORAS SOBRE O FRACASSO. TODOS OS QUE AS PROFEREM SÃO VENCEDORES E ASSIM É FÁCIL, É COMO DIZER QUE DINHEIRO NÃO É TUDO QUANDO SE TEM O SUFICIENTE. ONDE ESTÃO AS FRASES DOS FRACASSADOS SOBRE O FRACASSO?
Eu mesmo



Eu conheci o Martelo.

Não, você não leu errado nem eu digitei errado. Martelo mesmo, com “t”.

O conheci ainda pequeno. Seu grande ídolo era Mjolnir, o martelo mágico de Thor, deus do trovão. Invencível, indestrutível, quantas batalhas, quantas aventuras Mjolnir vivia nos gibis que Martelo devorava nas tardes de outono.

Quando não imitávamos as aventuras do martelo mágico brincávamos quase sempre de
oficina. Esse era o seu sonho, um tanto quanto mais pé no chão.

Ao final de sua adolescência tornara-se um autêntico martelo unha 30 onças, com cabeça de aço e cabo de Madeira de Lei envernizada. Ele tinha um quase indisfarçável orgulho disso.

Era então hora de deixar os gibis de lado e ganhar dinheiro, procurar um emprego de... Martelo, oras! O que mais?!

Fez uma lista de marcenarias e oficinas, lustrou-se todo e foi à luta.

Não havia vaga na primeira marcenaria. Na segunda ficaram com seu currículo e disseram que entrariam em contato caso surgisse uma posição. Nas oficinas que visitou até conseguiu ser entrevistado numa e noutra, mas nada de emprego.

Isso se repetiu várias vezes. Muitas vezes.

Começou a ficar desanimado e assustado pois precisava, como todo mundo, ganhar seu próprio sustento. Sem falar na delicada situação de estar sem trabalho, principalmente em reuniões sociais quando lhe perguntavam “o que anda fazendo?”, “onde está trabalhando?”.

Apelou para carpintarias, mas também não teve sucesso.

Estava cansado da rotina de ler os classificados nos jornais, de mandar currículos pelo correio, por e-mail e de se cadastrar em todos os sites de empregos quando surgiu uma oportunidade e o chamaram. Era uma vaga de chave de fenda. Espantado e assustado com o convite, foi aconselhar-se com amigos e parentes.

Concordaram que não era o ideal, mas ele não podia perseguir um ideal para sempre, tinha de se ajustar. Não precisa ser fatalista, falavam. Só por que nascera martelo não significava que não poderia aprender outras atividades. Na pior das hipóteses, ao invés de especialista seria um generalista com experiências variadas, tão procurados à época.

Ponderou. Não queria mais aquela rotina de desempregado e aceitou.

No início seus companheiros de marcenaria davam-lhe um desconto por seus trabalhos meio mal feitos. Afinal, era seu primeiro emprego. Mas depois de um tempo foi ficando claro que aquele serviço não era para ele. Seus colegas lançavam olhares estranhos e não demorou muito a ouvir conversas de corredor sobre como era incompetente. Pediu demissão e voltou à luta por seu lugar no mundo das marcenarias.

Mas os tempos, como sempre aliás, eram difíceis. Havia a concorrência com os martelos chineses, sempre trabalhando por salários irrisórios, e novas tecnologias que substituíam parte dos trabalhos nas oficinas.

Ele tentou, tentou, tentou até que apareceu uma vaga de serrote.
Caracas! Nem eu acreditaria se não tivesse acompanhado sua estória de perto.

Disseram-lhe que com o tempo ele se adaptaria, não precisava fazer um trabalho “fino”. Bastava separar os pedaços de madeira na marretada mesmo. Como da vez anterior, aceitou para sair da bacia das almas.

A novela se repetiu. Tudo bem no início, os amigos eram complacentes, mas logo, como era um trabalho em cadeia, seu desempenho muito aquém do necessário atrapalhava o resultado final. Voltou a se sentir incompetente, opinião da qual seus colegas, agora ex, partilhavam. Isolou-se no canto da marcenaria fazendo seu trabalho quase que se desculpando. O chefe já não lhe passava muito trabalho. Foi, como dizem, posto na geladeira.

O estigma de incompetente instalou-se em sua alma. Já acreditava, e a realidade parecia lhe mostrar isso, que não servia para nada em lugar nenhum. Ficou estressado e o resultado de seu trabalho, que não era bom, ficou pior.
Não tinha mais condições de continuar. Pediu demissão.

Sem emprego novamente e acreditando que não tinha utilidade nesse mundo, caiu em depressão. Acho que já estava deprimido desde lá de trás, mas agora havia caído a última gota no copo d’água, havia sido dado o último sopro na bexiga, havia...

Chega de metáforas. O fato é que, depois de tanto tempo e já com bem mais idade de que quando saiu à procura de emprego pela primeira vez, percebeu que estava meio velho para o mercado de trabalho e não tinha experiência na profissão para a qual nascera.

Teria tudo isso sido uma pegadinha do destino? E agora? Esforçava-se para não adotar o papel de vítima, precisava assumir suas escolhas erradas, mas escolher o quê quando parecia não
haver opções?

Como acaba essa estória? Ainda não acabou. Ele está por aí, não o vejo há algum tempo. Soube por acaso que voltara a estudar martelaria, talvez para se atualizar e engordar o currículo. Orgulhoso que era, deve ter vergonha de sua situação.

Uma pena. Ele podia ter sido um bom martelo.