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quarta-feira, 30 de junho de 2010

BUSQUE AJUDA

"É como se um vazio se esparramasse em toda à sua volta, e às vezes houvesse dentro deles uma espécie de buraco que não conseguem preencher com nada".



“...angústia, ansiedade, desânimo, falta de energia e, sobretudo, uma tristeza profunda, às vezes tédio e apatia sem fim. Faz as coisas com dificuldade, como se estivesse pesado, lento, sem prazer, fazendo o mínimo, só o essencial a cada dia... Quase não conseguem sentir prazer nas coisas que normalmente as interessava, e por isto têm pouquíssimos interesses. São pessimistas. Muitas vezes têm dificuldades com o sono, ou com apetite.


Você conhece a ABRATA?

http://www.abrata.org.br/

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O QUE SOU EU, O QUE É DEPRESSÃO?


I hurt mysef today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing was real

Johnny Cash


Por diversas vezes numa mesma semana, parece que minha vida não tem mais jeito, nada mais vai dar certo. Horas ou dias depois, uma fagulha de esperança me leva a tocar diversos projetos simultaneamente.


Tem dias que me sinto um traste, o pior dos piores, um inútil que serve apenas como aviso aos demais. Noutros, percebo em mim até algum talento que poderia ser lapidado.

Às vezes “sei” que vou acabar minha vida como um morador de rua, num banco de praça. Em seguida, como um príncipe que jamais perde a realeza, me pego analisando possibilidades futuras.

Meu casamento parece já ter terminado e, como um morto vivo, continua em pé apenas para devorar nosso cérebro. Tenho certeza de que minha esposa está não só farta de mim, mas me odeia. Em seguida, como saído de um pesadelo, tudo parece caminhar às maravilhas, com abraços, beijos e presentes.

Falta memória e esqueço compromissos, nomes, algo que me contaram pouco tempo atrás. E me lembro de coisas que ninguém mais se lembra, letras de músicas, cenas de filmes, pequenos detalhes que muitos nem haviam percebido.

Faço compras de supermercado, levo as cachorrinhas passear, vou ao banco, levo o sobrinho na escola, passo na locadora de filmes, na padaria, vou buscar um vaso novo para o jardim, vou ao banco, ao correio, pego o sobrinho na escola, levo as cachorrinhas ao petshop para o banho... Tudo no mesmo dia ou no seguinte ao que sentia total falta energia para sair da cama ou para levantar do sofá para ir dormir.

Uma angústia inexplicável dá lugar a uma paz extraordinária, uma tristeza que até dói é substituída por um vago sentimento de harmonia, o humor azedo e pessimista é trocado por outro, leve e alegre.

E eu me pergunto o tempo todo: eu sou assim? Será que sempre fui assim e não percebia? Ou é a depressão que faz com que meu comportamento seja uma montanha russa? Ou é efeito da medicação lutando contra a depressão dentro de meu cérebro?

Até onde, nesses picos e abismos, estou “eu” ou está a depressão?

Devo assumir esses momentos díspares como minha personalidade ou desculpar-me por estar passando por um TDM? Ou não é mais possível desamalgamar um do outro, tendo eu então tornado-me isso que sou hoje? Digo aos colegas que sou assim mesmo, esquecido, ou desculpo-me usando a depressão como culpada por ter deixado passar um compromisso, aniversário ou outro qualquer?

Acho que nunca vou saber.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

I wish I could cry,
As easy as the sky.
The tears don’t come as easily now.
They’re stuck inside my soul…

Angel, citada no livro O Demônio do Meio Dia - Uma Anatomia da Depressão, de Andrew Solomon

A não ser pelo fato de continuar respirando e andando por aí, eu já morri.

Morri para a vida que um dia eu achei que poderia viver, para os sonhos que gostava de sonhar, para as coisas que podia ter. Se depressão tem relação com a perda, essa nem sempre é um luto por uma morte na família nem uma perda física, real, mas uma perda ainda pior: a dos sonhos, dos objetivos, da perspectiva. A perda de si mesmo.

Passo pela avenida Sumaré num domingo pela manhã e vejo pessoas correndo, se exercitando, fazendo o velho jogging. E eu já morri pois não posso mais fazer isso. Minhas costas não permitem mais que dê três ou quatro passos em ritmo acelerado. A dor é paralisante. E, a bem da verdade, correr pra quê?

Vejo um grupo de adultos se divertindo com a brincadeira de Amigo Secreto. Todo ano é a mesma coisa: o pessoal monta um círculo de cadeiras e um por um vai ao centro fazer uma pseudo charada para que os demais descubram quem é o oculto que receberá seu presente. Enquanto todos riem, penso: é como rir da mesma piada vinte vezes, que bando de idiotas... Morri pois não consigo me divertir com quase mais nada. Ou melhor, não lembro de nada que me divirta de verdade.

Carros passam com homens de gravata ou mulheres bem arrumadas. Vão para o trabalho, lugar onde as pressões e possíveis humilhações são compensadas, bem ou mal, com o salário no final do mês. Morri pois não há mais como voltar à vida corporativa que levava. Eu não suportaria o enjaulamento num escritório sob ordens de algum chefe quase sempre um completo imbecil vaquinha de presépio e nem eles suportariam minha honestidade. Afinal, quem não sorri pelos corredores é mal visto.

Casais se abraçam num banco da praça. Em depressão nós nos trancamos dentro de nós mesmos, nos tornamos obcecados por nós mesmos e, após anos lutando contra sentimentos difusos de agonia e angústia, essa areia movediça engoliu minha parceira também. . Morri pois não consigo mais namorar, incapaz de sentir afeto. E ela, como não recebe, também já não dá mais.

Às vezes tentam me ajudar. Amigos e familiares, desconhecendo as armadilhas e caminhos tortuosos por onde se perdem as mentes deprimidas, parecem ter decorado as “cem frases que não se deve dizer a um deprimido” e as continuam repetindo, repetindo... Evito comentar qualquer coisa sobre meu verdadeiro estado de espírito porque, agnóstico, vão dizer que sofro assim porque não tenho Jesus no coração. Morri porque estou só, absolutamente só num mundo com mais de seis bilhões de pessoas.

Em filmes, o herói ou heroína vão ao inferno, passam o pior dos pesadelos, mas no final tudo acaba bem. Por mais que me esforce, não consigo ver final feliz em meu filme. Morri porque não vejo perspectiva, não vejo luz no fim do túnel, não vejo como não acabar muito, mas muito mal nessa estória.

O que é a vida se não se tem perspectiva positiva à frente?