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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

TER DEPRESSÃO É BOM, RUIM É ESTAR DEPRIMIDO

Brincadeiras à parte, novamente se levanta a questão bastante polêmica do tal "lado bom da depressão": a revista Mente e Cérebro deste mês traz artigos nos quais especialistas afirmam que a depressão "...pode ser uma adaptação mental saudável que nos oferece melhores condições para resolver problemas complexos" em "O Lado Luminoso da Escuridão".

Em outro artigo, "É Mesmo Ruim Sentir-se Tão Triste?", explicam o TDM como um "...mecanismo de autoproteção contra situações desgastantes; o rebaixamento do humor aumenta a capacidade de concentração e nos faz rever atitudes".

Há também uma crítica (positiva, de modo geral) ao livro "A Tristeza Perdida" dos psiquiatras Allan Horwitz e Jerome Wakefield, no artigo "Com quanta tristeza se faz uma depressão?", segundo o qual "...os autores querem demonstrar que a tristeza intensa é uma capacidade natural humana e não uma fraqueza de caráter e que a tristeza é produto de processos mentais relevantes funcionando conforme foram biologicamente projetados para reagir à perda. São problematizadas as vantagens e desvantagens de haver definições demasiado amplas de transtorno depressivo, bem como tratamentos injustificados, medicalização desnecessária e estigmatização".

A depressão é comparada a uma febre: ela não é o problema, mas sim um sintoma e, como a febre, necessária em determinadas situações para o restabelecimento e reequilíbrio do organismo, ou seja, o nosso.

Ainda estou lendo, mas uma coisa me chamou a atenção: nestes e em outros artigos os especialisatas parecem ser unânimes em propor aos deprimidos que não fujam do problema, não procurem distrações ou sigam conselhos até bem intencionados como "manter a cabeça ocupada ajuda a melhorar" ou "vai trabalhar que passa". Isso apenas prolonga o sofrimento ou o transforma numa bomba relógio, que mais cedo ou mais tarde...

Ao contrário, dizem que devemos sentir o problema, vivenciar essas emoções, colocar para fora, escrevam sobre o que se está passando. Instintivamente, é mais ou menos isso que tenho feito aqui.

Experimente você também. É realmente aliviante.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

CULPA

Limb by limb, tooth by tooth
Tearing up inside of me
Every day, every hour
I wish that I was bullet proof

Bullet Proof - Radiohead


Todo mundo que já leu algum artigo sério sobre depressão sabe que a “culpa”, esse sentimento dilacerante, é uma constante nos acometidos pelo transtorno.

Muitos já leram também – e eu citei aqui – que a auto-ajuda não auxilia quem realmente precisa, e eu coloco na categoria de auto-ajuda aquelas mensagens e vídeos sobre alguém que sofreu muito, tem grave deficiência ou doença mas deu a volta por cima.

Muita gente parece gostar de receber esses vídeos ou apresentações em Powerpoint. Aparentemente, o efeito esperado é algo como “...oh, veja como esse aí sofreu. Eu até que estou bem comparado com ele...” e o indivíduo sai - iludido - achando que a vida dele nem é tão ruim.

Eu detesto, e nem é porque são bregas ou chatos, mas porque em mim resultam numa piora de meu estado. Ou resultariam, se eu não conhecesse esse mecanismo e não lutasse contra ele.

Dia desses recebi um vídeo sobre um cara sem braços e pernas. Não vi mais que dois segundos e por isso não sei o que o cara apronta, mas com a sugestiva frase “Pare de reclamar da vida” já fiquei puto.

Minha leitura – e a de muitos depressivos - é: “...ah, o cara não tem braços nem pernas mas está aí, desfrutando da vida, fazendo isso e aquilo enquanto eu estou aqui super saudável mas semi-morto ... Sou um merda mesmo...”.

Com braços e pernas normais, o efeito em mim é o contrário do esperado e, apesar de conhecer esse processo mental, não é fácil controlar o sentimento de culpa que sobe pela garganta como um vômito. Culpa por não reagir a contento, culpa por não ser o que esperavam de mim, culpa por não ser o que EU esperava de mim... culpa... culpa...

E então a garota do caixa pergunta se não quero colaborar com o planeta e colocar as compras em caixas ao invés de sacolinhas plásticas...

O mundo que se exploda!

terça-feira, 20 de julho de 2010

Deprimido é uma merda.


“O depressivo sofre de uma liberdade conquistada, porque não sabe desfrutá-la”. 
Elisabeth Roudinesco - “Por que a psicanálise?”.


Não importa o quão boa seja a notícia, o quão elevado seja um comentário ou opinião, a gente sempre vê o lado negativo das coisas. Que saco isso!...

Estive “me observando” e notei que faço isso constantemente. Se me elogiam, logo penso em retrucar apontando minhas falhas. Se recebo uma boa notícia, de imediato comento sobre o lado ruim da coisa. Se algo bom acontece, fico prevendo possíveis conseqüências nefastas e desdobramentos negativamente inesperados.

Quanto disso é pura chatice e quanto é seqüela da depressão? Eu não era assim “antes”...

Então comecei a me policiar, me esforçando em ao menos manter a boca fechada. Penso em todas essas “negatividades” mas evito dizê-las e estragar o dia dos outros (isso não vale aqui no blog, pois essa é a razão dele existir).

Quanto disso é fuga? Quanto disso não é medo de encarar uma realidade da qual “penso” não gostar? Porque não fico, muito mais simples seria, feliz com um elogio ou uma boa notícia e, ao contrário, me recolho entre as nuvens negras de pensamentos depressivos?

Certa vez, em “O Poder do Mito”, de Joseph Campbell, li a estória que ele conta sobre um nativo africano que vivera toda sua vida na mata fechada e que, acompanhando uma expedição, ao chegar na planície aberta apavorou-se. Não tinha noção de distância, de perspectiva e vendo os animais – que na verdade estavam bem longe – amedrontado correu de volta para a floresta.

“O depressivo é aquele que percebe o campo aberto à frente dele e percebe também o medo que ele tem de ocupar esse campo. Porque dá medo mesmo”, diz Maria Rita Kehl, de “O Tempo e o Cão” em entrevista a Lisandro Nogueira e Luciene Ferraz, revista Época.

Será que, tão acostumado a ver tudo pelos filtros cinza de depressão, simplesmente não sei ser feliz?

Será possível que, como o nativo acostumado à mata fechada, estou eu acostumado às nuvens negras da depressão e apavoro-me ao imaginar sair dessa "zona de conforto"?

quarta-feira, 30 de junho de 2010

BUSQUE AJUDA

"É como se um vazio se esparramasse em toda à sua volta, e às vezes houvesse dentro deles uma espécie de buraco que não conseguem preencher com nada".



“...angústia, ansiedade, desânimo, falta de energia e, sobretudo, uma tristeza profunda, às vezes tédio e apatia sem fim. Faz as coisas com dificuldade, como se estivesse pesado, lento, sem prazer, fazendo o mínimo, só o essencial a cada dia... Quase não conseguem sentir prazer nas coisas que normalmente as interessava, e por isto têm pouquíssimos interesses. São pessimistas. Muitas vezes têm dificuldades com o sono, ou com apetite.


Você conhece a ABRATA?

http://www.abrata.org.br/

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Depressivo na Contramão

É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz a uma estrela brilhante

Nietzsche.
 
 
"O Depressivo na Contramão" (leia ali no menu "Artigos", à direita) é mais um brilhante artigo sobre depressão, analisando o livro o Tempo e o Cão, que novamente recomendo.
 
Acredito que todo deprimido já se sentiu na contramão de seu tempo, de sua sociedade, e injustiçado por se sentir assim.

terça-feira, 11 de maio de 2010

DEPRESSÃO COMO UM DESPERTAR DA IGNORÂNCIA SOBRE A VIDA

A frase acima, de certo modo, resume meus últimos 5 anos. Era essa "A" frase que tanto procurei.

Achei em um web site, cujo endereço repasso abaixo, repleto de curtos e interessantes artigos sobre nosso assunto em particular.

Não vejo com muito bons olhos a frase "Cura para a Depressão através..." disso ou daquilo, mas como não há nenhum "clique aqui e compre..." ou "filie-se à nossa Igreja" abaixo dos textos, vale a pena uma lida.

São textos breves, não sei da profundidade de seu valor médico-científico mas, muitas vezes, o óbvio é a coisa mais difícil de enxergar e é disso que eles tratam.


Gostei especialmente de ter lido algo sobre o que intuía - o despertar (nem diria tanto da ignorância, mas da ingenuidade) e da descoberta de potenciais desconhecidos (ambos no menu à direita - Despertar para a Vida).

O endereço é:
http://tratamentodadepressao.org/

quinta-feira, 6 de maio de 2010

IGNORÂNCIA PODE SER UMA BÊNÇÃO


Suicídio não é querer morrer, é querer desaparecer.

Georges Perros





Um princípio básico da meditação, prática voltada a acalmar a mente, ao menos no Zen, é deixar os pensamentos passarem livremente, sem se ater a eles. Consideram que é impossível simplesmente não pensar em nada, esvaziar a mente como outras escolas pregam e tenho observado que eles parecem ter razão.

Não dá pra simplesmente não pensar em nada, mas é possível não concentrar-se em coisa alguma em especial, apenas deixar fluir os pensamentos até o ponto em que a mente realmente se acalma, o fluxo de frases, sons e imagens diminui como se uma tempestade se transformasse num lago calmo e profundo.

Mas e as emoções? Tenho dúvidas de que controlando pensamentos conseguimos controlar as emoções, os sentimentos, principalmente em nosso caso, deprimidos e distímicos.

O fluxo de sentimentos e emoções no deprimido, ao menos em meu caso nos piores (e diversos) dias, é caótico, tempestuoso, negativo, desesperançoso, angustiante, aflitivo, torturante.

O estômago revira, a cabeça gira, a atenção dispersa, o corpo inteiro dói, falta ar.

Nestes dias não há meditação que dê jeito e por diversas vezes gostaria muito de ter um botão “on/off”. Não que quisesse realmente dar cabo à minha vida, mas me desligar temporariamente, tirar uma folga de mim mesmo.

Por duas vezes tentei fazer uma “farmacinha” com tudo o que achei de remédios em casa. Leigo no assunto, separei os que achei que davam sono, principalmente anti histamínicos, antipiréticos e analgésicos com dipirona e tramadol. Peguei dois ou três comprimidos de cada e tomei com uma farta dose de uísque sem gelo num gole só.

Consegui apenas uma dor de cabeça daquelas...

O suicídio é tratado por muitos como "a saída mais fácil", "a fuga dos imbecis" ou "a saída do covarde". Duvido que um destes já tenha passado realmente por uma depressão. Como dizia Francesco Orestano, "o suicídio demonstra que na vida há males maiores que a morte".

Tenho medo de ficar paralítico, cego, surdo, acabar minha vida num banco de praça como morador de rua, mas morrer...

Dia desses me chega a notícia de que um colega de trabalho de minha mulher estava internado, intubado, em coma devido a uma overdose de antidepressivos.

Fico sabendo isso só agora que meu remédio acabou e resolvi tentar seguir adiante sem ele.

Puxa, se eu soubesse antes...

terça-feira, 23 de março de 2010

A VIDA NÃO IMITA A ARTE...

Hold me now
I'm six feet from the edge and I'm thinking
Maybe six feet
Ain't so far down
I'm so far down
Creed


...Nem a arte imita a vida. Filmes em geral mostram o clichê da redenção, por exemplo, quando o cidadão comum que entra num inferno, passa as maiores agruras e no final tudo acaba bem.

Bonito isso... Mas não é verdade, é só um filme. Na vida real parece não haver redenção no final, aquele desfecho em que o personagem termina abraçando alguém, beijando ou sorrindo feliz com aquela expressão de “enfim, acabou” e, óbvio, tudo fica numa boa.

Na vida real, imagino que na maior parte das vezes, não há final feliz. Há apenas o final possível, que quase nunca é o que gostaríamos mas nos conformamos pois “tudo poderia ser pior”. Filmes não dariam boas bilheterias se retratassem a verdade.

Neles, Hollywood gosta de mostrar que a vida tem altos e baixos mas sempre termina no “altos”. Não, não termina. O filme é que termina, pois por algum motivo que desconheço estipularam que 80 minutos é o ideal para se contar uma estória. Eventualmente um pouco mais, como em Avatar.

Muitas vezes a vida real não tem altos e baixos, mas apenas baixos e baixos. Somos levados a acreditar que não ganhamos sempre, mas é duro quando percebemos que perdemos sempre.
Havia um cara assim. Ele desistira de lutar pois sabia que não havia um grand finale para ele.

Seguia em frente sem saber direito se era covarde demais para dar fim àquela existência medíocre ou se, soterrado no mais profundo de seu ser, havia uma fagulha de esperança que algo mudasse.

Já havia tentado de tudo, entrado em contato com todos e mais alguns, tido diversas ideias, mas sua vida simplesmente patinava.

Anos e anos sem progresso, apenas existindo. Sua angústia existencial era grande. Como gostaria de ser como os animais, que não se preocupam com o futuro, nem com sua passagem por esta vida nem se para ela há ou não um sentido. Apenas vivem. Isso deveria bastar, mas não.


Faltava-lhe o fôlego às vezes, tamanha a aflição. Para tentar não enlouquecer, às vezes caminhava.

Foi quando, tarde da noite andando pela rua, um homem o abordou com uma arma. Disse que ia matá-lo se não entregasse a carteira e o relógio.

Então, depois de muito tempo, ele sorriu.

terça-feira, 16 de março de 2010

INÚTIL


In this proud land we grew up strong
We were wanted all along
I was taught to fight, taught to win
I never thought I could fail

No fight left or so it seems
I am a man whose dreams have all deserted
I've changed my face, I've changed my name
But no one wants you when you lose


Peter Gabriel



O que define uma pessoa inútil?

Bem, como alguém já disse, ninguém é totalmente inútil pois pode ao menos servir de mau exemplo mas, voltando: é razoável a gente se sentir inútil porque não ganha dinheiro?

Parece que sim. Não importa o quanto você faça em casa, o quanto você queime todos os seus neurônios em tentativas frustradas de negócios, se esfole na procura absolutamente infrutífera por emprego, que preste todo o tipo de favores para um monte de gente.

Em nossa sociedade, se você “não faz dinheiro” você é um inútil.

Independente de longuíssimas elucubrações sobre o formato social no qual estamos vivendo, acho que isso começa lá atrás, quando ainda somos crianças e, mal sabendo falar direito, já temos de responder à pergunta “o que você quer ser quando crescer?”.

Lembro que queria ser astronauta. Não tinha a menor ideia do que era ser um astronauta (a maior parte das pessoas adultas ainda não sabe), mas queria ser um. Por quê? Vai saber...

E porque temos de “ser algo”, sendo esse algo uma profissão? Parece uma pergunta idiota, mas pense, saia da superfície, prenda o ar e mergulhe fundo nessa questão: uma profissão ou atividade econômica é o que define a pessoa em nossa sociedade. Carlos "é" médico, Eduardo "é" dentista, Márcia "é" analista de sistemas... Todo mundo “é” uma profissão, ninguém "é" somente gente, somente uma pessoa, um humano, uma unidade carbono do quarto planeta do sistema solar.

A gente deveria ser livre para, apenas, sermos nós mesmos. A resposta “correta” para tal pergunta deveria ser, já em nossa tenra infância (se eu tivesse filhos ensinaria essa) “eu não quero ser, eu já sou: eu sou eu mesmo”.

A pergunta é que está errada. O certo é “o que você vai fazer pra ganhar dinheiro e se sustentar quando crescer?”, mas alguém, politicamente correto, dirá que isso estressaria a criança. Talvez a pergunta fosse assim antes de resolverem resumi-la.

Pois bem, como não arrumo emprego nem consigo fazer pequenos negócios darem certo, não me sinto à vontade para dizer que sou publicitário. Afinal, essa é apenas minha formação acadêmica. Não me sinto à vontade para dizer que “sou” MBA em marketing, afinal esse foi apenas um curso noturno que fiz sei lá por que.

Então eu sou... O quê?

Minha agonia existencial terminou hoje pela manhã, quando fui fazer a declaração do Imposto de Renda de minha mulher. Descobri ali no programinha do IR uma definição para mim:

- eu sou o código “51 – pessoa absolutamente incapaz”.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

DEPRESSÃO E O ZEN


Talvez eu e você nunca saiamos totalmente da areia movediça que é o TDM, talvez eu seja deprimido crônico mesmo, ou a depressão deixe sequelas.

A depressão me parece ser como as nuvens: elas se dissipam, mas não desaparecem totalmente. O céu chega a ficar completamente azul, mas elas estão por ali, em algum lugar, se formando, à espreita...

Ditados Zen budistas, os verdadeiros, são ótimos para explicar de modo profundo e sem teoriazações intelectuais coisas extremamente complexas – isso só é possível indo ao âmago das coisas, como o Zen faz tão bem - e eles extrapolam o universo filosófico oriental. Ou então minha imaginação é que é fértil...

Um desses ditados (ou koans) diz:

“Quando você se inicia no Zen, árvores são árvores, montanhas são montanhas.
Quando você estuda o Zen, árvores deixam de ser árvores, montanhas deixam de ser montanhas.
Mas quando você finalmente compreende, árvores são árvores, montanhas são montanhas”.
Talvez eu esteja forçando a barra, mas isso faz muito sentido para mim agora que estou com quase todo o corpo fora do banco de areia movediça da Depressão.

Digo isso de uma forma possivelmente simplista, mas me baseio em tudo pelo que passei e na tonelada de artigos que li.

De modos opostos, Zen e Depressão mudam nossa maneira de ver e sentir o mundo ao redor: o Zen, em geral, leva a uma harmonização com o mundo exterior através do equilíbrio interior. Já a depressão...

Não sou um fanático new age querendo influencia-lo, longe disso, mas tendo recebido alguns comentários e contatos por causa de meus posts, gostaria de dizer uma única coisa a todos que passam pelo que passei: ISSO PASSA.

Sei que, se você está na pior fase, não vai querer acreditar, vai retrucar, contra-argumentar, reclamar, resmungar... Mas quem aqui escreve também já teve crises abismais de angústia existencial e descrença absoluta numa solução que não o fim dessa vida - psicológica e emocional - miserável.

Como saí dessa? Posso dizer que foram as inestimáveis sessões de terapia (saudades da Dra. Carmem...) aliadas à medicação. Parei com ambas há algum tempo, quando decidi que eu teria de ser forte, teria de “andar com minhas próprias pernas”. Em verdade, eu tinha até certo medo de me viciar tanto na terapia quanto na medicação e não mais conseguir ir em frente sem elas.

Eu decidi? A terapia me levou a decidir? O medicamente fez meu cérebro decidir?...

Se eu saí de “onde” estava, você sai também. O importante – difícil, extremamente difícil durante os piores períodos – é saber, não acreditar, mas saber mesmo, que passa. Nada mais verdadeiro que “na vida tudo passa, até a uva passa”.

Me redimindo da piada acima, uma última estorinha Zen:

Um praticante de meditação estava triste, infeliz, pois há tempos vinha se dedicando a meditação sem nunca conseguir praticar uma boa meditação, sentia-se sempre desconfortável, agitado interiormente.

Desanimado com sua meditação, resolveu ir a um templo procurar a ajuda de um mestre Zen.

Chegando lá, encontrou o mestre varrendo a entrada do templo, com movimentos precisos, leves e harmoniosos.

-“Minha prática de meditação não está boa; muitas vezes me distraio, meu corpo me incomoda, minha mente se agita...” explicou o praticante.

“Tudo bem, isso vai passar ” - disse o mestre, sem olhar para ele e sem parar de varrer a entrada do templo, com movimentos precisos, leves e harmoniosos

Sem saber o que fazer, o praticante foi embora.

Algum tempo depois o praticante voltou ao templo e foi procurar o mestre.

Encontrou o mestre cuidando das flores do jardim, com movimentos precisos , leves e harmoniosos.

“Minha prática de meditação está maravilhosa; eu me sinto consciente, meu corpo não me incomoda, minha mente está serena “ - disse com alegria e felicidade o praticante.

“Tudo bem, isso também vai passar” - disse o mestre, sem olhar para ele e sem parar de cuidar das flores do jardim, com movimentos precisos, leves e harmoniosos.

Entendeu?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

CAFÉ CONTRA A DEPRESSÃO E SUICÍDIO

Fui uma criança muito, mas muito imaginativa, criativa e sonhadora. De uns anos pra cá fiquei meio cético, meio racional demais, mas não consigo deixar de imaginar o tamanho da coincidência depois que li um artigo dizendo que o café, nosso santo cafezinho, pode ter efeito preventivo /profilático contra a depressão.

Os tais estudos chegaram à conclusão de que "a incidência de distimia e de depressão é menor entre adultos e crianças que tomam 4 xícaras de café por dia em comparação aos que não tomam ou tomam menos que isso".

Segundo o artigo, "o consumo diário de 4 xícaras de café pode ajudar a prevenir a depressão e o suicídio, segundo estudos efetuados em mais de 200.000 pessoas por um período de dez anos por dois grandes centros de pesquisa nos Estados Unidos (Califórnia e Boston), dados estes obtidos pela equipe do autor a partir dos anos 80 entre jovens escolares brasileiros. O fato do café puro ou com leite na dose de 3 a 4 xícaras diárias ser um agente PREVENTIVO da depressão bem como a possibilidade de um fitoterápico de café ser um agente CURATIVO para a depressão coloca o consumo de café e seus subprodutos como prioridade para a ciência médica que visa combater o mal do século, a depressão".

Qual é a coincidência? Eu sou tão fanático por café que até resolvi chamar meu outro blog de "Pausa prum Café".

Um blog voltado à depressão, outro nem tanto ao café, mas tendo-o como tema e título. Estranhas coincidências do destino ou, como diz Leonard Mlodinow em O Andar do Bêbado, apenas nossa humana e confusa mente tentando encontrar significado em coisas não relacionadas?

Pelo sim, pelo não, vou lá agora preparar mais um cafezinho...


Os tais estudos:

- KLATSKY, A.L. et al. "Coffee, Tea, and Mortality," ANN. EPIDEMIOL., 1993 (3), pp. 375-381.

- KAWACHI,I. et.al. "A prospective study of coffee drinking and suicide in women," ARCH. INTERN. MED., 1996 , 11 (156), pp 521-525.

- LIMA, D.R. : CAFÉ, DEPRESSÃO e ALCOOLISMO. - 1a parte . Jornal da ABIC, VIII, 97, 26, 1999

- LIMA,D.R. CAFÉ, DEPRESSÃO e ALCOOLISMO - 2a parte . Jornal da ABIC, VIII, 98, 24 , 1999

- LIMA, D. R. CUIDADO!!! O POPULAR CAFÉ E A PODEROSA MULHER... PODEM FAZER BEM À SAÚDE. Petrópolis: Medikka Ed. Científica, 2001. 111 p.

- LIMA, D. R. MANUAL DE FARMACOLOGIA CLÍNICA, TERAPÊUTICA E TOXICOLOGIA. Rio de Janeiro: Medsi Ed. Científica, 2003. 3 Volumes, 3.456 p.

- FLORES, G., ANDRADE, F. & LIMA D.R.: Can coffee help fighting the drug problem: preliminary results of the Brazilian Youth Drug Study (BYDS). ACTA PHARMACOLOGICA SINICA, Shangai, 2000, 21 (12): pp. 1059-1070.

sábado, 5 de dezembro de 2009

DEPRESSÃO - O MELHOR REMÉDIO


Pesquisa é o processo de entrar em vielas para ver se elas são becos sem saída.
Marston Bates


Eu tenho uma pequena coleção de textos sobre o tema desse blog e só agora me lembrei de compartilhar com você que vem até aqui ler meus posts.

Talvez você já os conheça, mas acredito que possam ser úteis a alguém que passa pelo mesmo que passamos.

Procurei artigos que considerei ou me pareciam "sérios". Portanto não encontrará aqui aquelas pérolas sobre "a cura" da depressão, nem apresentações ppt com bebês sorrindo, cães dormindo ou crendices diversas.

Estão ali, coluna à direita. Se tiver conhecimento de algum bom artigo, comparti-lhe.

Eu acredito que o melhor remédio para a depressão é conhecê-la, entendê-la, saber como nos afeta, porque nos afeta. Não que isso vá curar-me, mas faz com que eu me sinta menos mal. Experimente e me conte depois.

Ah, mais uma coisa: algumas pessoas tem feito comentários aqui no Crônicas e eu gostaria de respondê-los ou comentá-los, mas não consigo se os deixam como "anonimous". Acho que se se identificassem o blog ficaria mais dinâmico, uma troca de experiências, uma conversa entre iguais.

É isso aí.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

FIZ NADA...

"...Será que o Diabo fez o mundo enquanto Deus dormia?..."
Tom Waits


Era final de 2006, mais exatamente 20 de dezembro, quando fui demitido da empresa onde trabalhava desde apenas janeiro do mesmo ano.

Não foi algo unilateral nem inesperado. Era um publicitário tentando atuar como técnico atuarial numa empresa de planos de saúde. Não podia dar certo mesmo. Falei com os superiores, pedi que me mudassem de área, mas havia empecilhos salariais e políticos. Resultado: rua.

Mas eu já vinha apresentando há mais de dois anos um comportamento definido por colegas como sorumbático. Acho que tudo começou a degringolar dois anos antes, na empresa em que trabalhei antes dessa em que fui demitido. Nela eu percebi que era o patinho feio, um peixe fora d’água, pois já estava longe de meu habitat natural. Era uma empresa de seguros, cheia de administradores, advogados, matemáticos, técnicos atuariais. Terreno hostil para um publicitário.

No tal fatídico mês de dezembro eu sentia dores terríveis nas costas, tive de ficar uma semana em repouso, faltando do trabalho. Pouco antes disso, peguei uma gripe como nunca havia tido até então. Também faltei uns dias do trabalho. Trabalhei quase nada neste mês.

Assim, entrei em 2007 deprimido, desempregado e sem um plano B. Que tivesse! A tormenta mental que o estado depressivo causa me impossibilitaria de enxergar possibilidades, oportunidades, planejar qualquer coisa teria sido extremamente penoso.

A depressão tomou conta de meu espírito, de minha alma, de minha mente, de meu corpo.

No supermercado, por duas vezes, ao ver aposentados e pessoas idosas fazendo suas compras à minha volta senti as trevas me abraçarem, o carrinho parecia pesar uma tonelada apesar de ainda vazio e tudo o que eu queria era que apagassem a luz para que eu pudesse deitar e ficar ali, no chão, no escuro, no silêncio, para sempre. Com dificuldade para respirar e a força da gravidade elevada à milésima potência sobre meus ombros, o esforço para continuar a empurrar o carrinho, fazer as compras e me comportar como uma pessoa normal, sã, quase me levou às lágrimas, o que me faria sentir ainda mais ridículo.

Em outras duas ou três situações, indo a algum compromisso, desisti no meio do caminho tamanha era minha inexplicável aflição. Faltava ar, a cabeça girava, confusa. Eu parava o carro em ruas escuras, deitava o banco, fechava os vidros, os olhos e ficava por horas em silêncio. Só voltava pra casa quando era mais ou menos a hora em que deveria chegar, evitando explicações por chegar cedo.

Por diversas vezes a agonia era tão sufocante que pensei em sumir, largar tudo, sair pelo mundo deixando essa vida para trás, mais ou menos como o garoto de Natureza Selvagem. Estive muito, muito perto de fazer isso.Acho que se fosse mais jovem teria feito, mas os anos vividos trouxeram mais que duas hérnias de disco... Sabia que essas crises passavam e a idéia ia embora, temporariamente.

Mesmo assim, num esforço hercúleo, comecei a prestar pequenos serviços de marketing. Fiz um folder aqui, um folheto ali, criei um logotipo acolá.

- diagramei livro de normas da Agência Nacional de Saúde;
- criei logotipo para uma consultoria jurídica, além de cartão de visita e papel carta;
- o mesmo para uma consultoria de seguros;
- criei logotipo para empresa do marido de uma ex-colega;
- produzi um folder e apresentação ppt para uma empresa de tecnologia do marido de outra colega;
- prestei serviços de marketing à fábrica de meu pai, criando folhetos, web site, rótulos...;
- acabei indo trabalhar na fábrica, viajando 220km três vezes por semana para ir e voltar;
- ilustrei meu primeiro livro, escrito há uma década;
- escrevi e comecei a ilustrar o segundo;
- escrevi o terceiro;
- mantive ativo o blog Pausa prum Café, com alguns textos bastante elogiados pelos poucos que o visitam;
- comecei e mantive outro blog, o Crônicas de um Deprimido Crônico, que tem até seguidores;
- escrevi textos diversos e distribuí em vários sites na web;
- participei de concurso de criação de mascote para web site vegetariano;
- tentei a idéia de produzir camisetas focando os direitos animais e posse responsável;
- comecei a prestar serviço a duas novas corretoras, criando folder, folhetos, mala-direta, peças promocionais/institucionais...
- aprendi, me virando sozinho e tateando no escuro, a mexer com softwares profissionais como Photoshop, Painter, Dreamweaver, Publisher;
- tornei-me um “faz-tudo” em casa, troquei todas as tomadas e interruptores, luminárias, mudei móveis de lugar, montei móveis novos...

...E algumas outras coisas que não me lembro agora.

Nesse meio tempo, cursei um MBA em marketing e meu TCC foi a melhor nota da classe, fiz religiosamente as compras semanais em supermercado sem esquecer das pequenas urgências resolvidas no varejão ou padarias e encomendas de congelados.

Passeei diariamente, chovesse ou fizesse sol escaldante, com minhas duas cachorrinhas, além de levá-las pontualmente ao seu banho semanal em pet shop e manter a higiene em casa quando a coisa desanda, principalmente depois que adotamos duas felinas.

Mantive as contas pagas dentro de seus prazos.

Li, por baixo, dúzia e meia de livros, boa parte deles sobre depressão, ceticismo em relação à fé e religião, ética, direitos animais e uns poucos de humor.

Não consegui arrumar emprego, parei de tentar e essas minhas atividades profissionais, desenvolvidas num pequeno home Office que montei num quarto, me renderam pouco ou nenhum dinheiro, pois meus clientes são colegas com suas empresas iniciando atividades, ou seja, sem faturamento. Ficou a promessa de que um dia me pagam.

Na pior das hipóteses, aprendi muito e mantive a cabeça ocupada e produtiva.

Aí, três anos depois, agora sentindo que o fundo do poço está um pouco mais longe lá em baixo, minha mulher reclama:

- Pô, você fica aí sem fazer nada!...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A VIDA É BELA. É MESMO?...


"CHORAMOS AO NASCER PORQUE CHEGAMOS A ESTE IMENSO CENÁRIO DE DEMENTES".
Willian Shakespeare


Escrevo para perguntar a você leitor:

- quantas apresentações ppt você já recebeu com temas relacionados à beleza da vida?

- quantas frases e mensagens você já recebeu sobre esse mesmo tema?

- quantos livros conhece sobre esse mesmo assunto?

- quantas e quantas vezes você já leu ou ouviu sobre a esperança, sobre como é bom viver, etc., etc?

Aí então eu pergunto: se a vida é tão bela assim porque se esforçam tanto em afirmar e nos lembrar disso?

Minha teoria: são raríssimas as pessoas que conseguem encarar a vida como ela REALMENTE É. A grande maioria precisa dourar a pílula para poder seguir em frente.


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

E VEM CHEGANDO O VERÃO...


MELANCOLIA É A FELICIDADE DE SER TRISTE.

Victor Hugo


Não preciso dizer, todo mundo sabe: vários estudos apontam os países com clima frio e dias cinzentos como os que mais apresentam casos de depressão e suicídios.

Muitos, e há especialistas entre estes, afirmam que o verão é a época ideal para curar mazelas, é a época em que todos ficam mais felizes. Quem diz isso deveria usar o diploma de psicologia ou psiquiatria como papel higiênico, não sabe o que está falando (assim como a maioria dos idiotas de verão) e nunca foi deprimido.


Eu já escrevi que depressão não combina com clima tropical, não combina com a trinca "samba, suor e cerveja".

Profissionais da área de saúde mental que me perdoem, mas tenho minha própria teoria: deprimidos tendem a piorar nessa época justamente porque não conseguem acompanhar a alegria irracional que cai sobre a imensa maioria. Não acompanham, não entendem, não conseguem fingir alegria e se sentem ainda mais excluídos, mais à margem, mais estranhos em qualquer roda social - isso quando participam de alguma.

Não conseguem seguir - ficando ainda mais distante - o modelo de comportamento socialmente exigido nessa época. E ninguém que tenha sido contaminado pela alegria de verão quer se aproximar de um sorumbático deprimido.

Nessa época somos como leprosos: quanto mais longe melhor. Assim não atrapalhamos a festividade geral.

Para os deprimidos, desculpem se me atrevo a falar pela "categoria", o calor derrete os miolos e por isso todos ficam ainda mais bobos-alegres.

Verão é pagode. Consegue imaginar um deprimido curtindo um pagode?

sexta-feira, 9 de outubro de 2009


"FALAR DE MIM É FÁCIL,
DIFÍCIL É SER EU"
- na traseira de uma Kombi.

A tão conhecida sabedoria popular muitas vezes não passa de bobagem situacional, circunstancial, mas de vez em quando acerta o alvo.

Essa poderia ser a frase-tema, o slogan dos deprimidos.

Em "A Vantagem do Tímido", a psicoterapeuta americana Martin Olsen Laney, baseada em estudos não lembro de onde, divide o mundo em 1/3 de introvertidos e 2/3 de extrovertidos. Aliás, aí está um viés do título: a questão não é ser tímido, mas introvertido. Talvez essa palavra não ficasse bem na capa, mas seria mais correta.
Acredito que depressão seja algo ligado muito mais aos introvertidos. Se isso for correto, então talvez possa daí tirar a conclusão de que essa é mais uma das imensas e variadas dificuldades dos deprimidos se relacionarem com as pessoas: a maioria delas - 2 em cada 3 - é extrovertida ou, em outras palavras já utilizadas aqui no Crônicas, formam a turma do Sol-samba-suor-e-cerveja.

Duvida? Escreva algo na internet que seja sério, profundo, que faça pensar e compare a audiência com sites de piadas, de "relacionamentos" ou de bobagens quaisquer. Seu post ficará às moscas binárias... A massa de internautas, em sua maioria, navega para se divertir.

Num mundo dominado por extrovertidos, os introvertidos parecem ter um "problema a ser tratado, curado", uma deficiência. NÃO É VERDADE.

Na escala de valores amplamente adotada atualmente, é verdade: ser retraído ou inibido não combina com a sociedade do exibicionismo, das ocas celebridades Bigbrotheanas, do pensamento superficial.

A dificuldade do introvertido é muito parecida (basicamente a mesma) do deprimido: este não parece ser o seu mundo, por isso aquela permanente sensação de ser o "patinho feio".

Deprimido/distímico que sou, me revoltei: não, não sou eu que tenho problema, nem você leitor, mas sim a atual estruturação de nossa sociedade com valores absolutamente distorcidos.

Quer um exemplos de valores distorcidos? Um médico que estudou por mais de vinte anos precisa trabalhar em três lugares diferentes e dar plantões noturnos para ter uma vidinha classemediana. Uma loira ignorante semianalfabeta só precisa mostrar a bunda para ficar milionária.

Um professor estadual, a despeito da extensa discussão sobre sua qualidade profissional, ganha salário quase igual ao de um gari de rua. O profissional que vai transmitir conhecimento ao seu filho ganha um infinitésimo do que ganha um cretino que canta "Créu".

Grande parte das mulheres, por questões financeiras, deixa de ir ao dentista mas bate cartão no salão de beleza, no dermatologista ou na clínica de implante de silicone.

Sério: somos nós que temos problemas?...


quarta-feira, 23 de setembro de 2009


"A maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é que é infeliz."
Fiódor Dostoiévski

Hoje o dia está cinza, frio e úmido. Eu também.

Não é à toa que a taxa de depressão e suicídios em países não ensolarados como o nosso é mais alta. Sol, calor, samba-suor-e-cerveja não combinam com a introspecção típica dos deprimidos.

Sobre introspecção, estava viajando na maionese e lembrei de um post que fiz em outro blog meu. Mudei algumas coisas e reescrevi aqui.

Marina Colasanti, profundamente sábia, escreveu em “Eu sei, mas não devia”:

"A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia”.

De certo modo, o deprimido (nós) é aquele que diz “pare o mundo que eu quero descer”, como cantava Sílvio Brito criticado por Raul Seixas.

O deprimido é aquele que percebe a cretinice das vidas que só tem sentido no consumo, no sucesso profissional ou financeiro. A vida urbana em que se trabalha cada vez mais para poder consumir cada vez mais e, para consumir cada vez mais, trabalha-se cada vez mais. Uma espécie de Trabalho de Sísifo moderno.

Depressão é aquele “pedido de tempo” ao perceber isso. E eu cansei disso. E cansei de estar cercado de imbecis que, na prepotência de sua ignorância, fazem parecer que só eu estou louco.

Aliás, é isso também que Maria Rita Kehl diz em seu livro O Tempo e o Cão, citado no post anterior. O deprimido incomoda, pois a sociedade não gosta de quem a critica e não segue a boiada acéfala e risonha.

Eu pensava em como poderia escapar dessa ciranda tristemente viciosa que a cada dia se tornava mais pesada e sem saída.Foi quando li sobre a estréia de “Into the Wild” (Na Natureza Selvagem, aqui), baseado na trajetória de Christopher McCandless rumo ao Alasca em busca (ou fuga) de... Bem... McCandless morreu e só há interpretações possivelmente contaminadas sobre sua escapada.

Pouco depois li sobre Jonathan Dunham, um ex-professor canadense que largou tudo e está cruzando o planeta a pé acompanhado de seu burro, chamado Judas. Motivo, nem ele mesmo sabe ao certo. Jornais ao longo de sua rota noticiaram que ele estava caminhando pela paz mundial, para estabelecer um recorde ou para divulgar a palavra de Deus.

"Eles sempre encontram algo para dizer", disse Dunham sobre os repórteres que buscam conhecê-lo.

Lendo isso, lembrei-me da multidão seguindo Forrest Gump enquanto corria. Ele apenas corria.

Dias depois, entre minhas séries enlatadas preferidas, vi Jason Gideon (Mandy Patinkin) abandonar a liderança intelectual da equipe de agentes do FBI em “Criminal Minds”, deixando apenas uma carta explicando sobre sua dificuldade em ainda acreditar que as coisas podem dar certo no final.

E espantei-me com Sara Sidle, em pleno breakdown emocional diante de tantas tragédias, despedindo-se de Grisson em “CSI”. A personagem também deixa uma carta dizendo que, apesar de ter feito de tudo para ficar, precisava de um tempo para “repensar”.

São, todos esses, personagens perdidos em seus caminhos e em seu sentido de existência.

Teria sido tudo sintoma de atenção seletiva?

Será que é possível "desacostumar" de tudo e recomeçar em outro lugar?

“- ...E o que você vai fazer quando chegar ao Alasca?" – pergunta o divertido malandro vivido de maneira carismática por Vince Vaughn em “Na Natureza Selvagem”.

“- Apenas viver, cara, viver...”, responde McCandless.



segunda-feira, 16 de março de 2009

RÚEMÁI?


Alguns enxergam até certo charme ou poesia numa pessoa deprimida, mas isso quando a criatura deprimida é famosa, poderosa ou simplesmente rica.

Ludwig Van Beethoven, Abraham Lincoln, Santos-Dumont, Winston Churchill, Kurt Cobain, Alanis Morissette, Virginia Woolf...

Alguns, no entanto, não são famosos, não fazem nada relevante e, muitas vezes, não são ou deixam de ser produtivos. São só uns manés anônimos, chatos e tristes. Meu caso.

A medicação tirou-me do fundo do poço, a terapia deu-me certo equilíbrio. Mas pararam por aí. E não farão milagres.

Tenho mania de emprestar frases ou versos de músicas. Pois bem, como canta David Bowie em Something in the Air, "...Ive danced with you too long...".

É isso. Foi tempo demais, anos a fio dançando ao som da depressão. A correria da vida em uma megalópole rouba grande parte de sua atenção e você percebe sim que ela o acompanha, mas não tem tempo de refletir. Sai correndo pela manhã, volta cansado à noite. E assim ela vai te levando para cada vez mais fundo, mais fundo...

Apesar de Hollywood insistir nos finais felizes, ninguém sai impune depois de tanto tempo deprimido.

Você jamais volta a ser como era antes dela apoderar-se de sua alma. Na melhor das hipóteses, assim como após um grave acidente automobilístico, sobrevive mas talvez perca um membro, carregará consigo as cicatrizes, as marcas, algumas dores crônicas para o resto da vida.

Tanto tempo depressivo e auto-anulado, não havia mais "baixa auto-estima", mas sim apenas "baixa-estima" ou "ainda-mais-baixa-estima", pois a palavra "auto" poderia dar um sentido de algo elevado a quem ouve. Agora não sei mais quem sou eu de verdade.

É comum entre deprimidos e principalmente distímicos achar que a gente não ESTÁ assim, mas que SOMOS assim. Sou mesmo o cara deprimido de há tantos anos? Quem eu era antes disso?

O mundo parece ter ficado mais grave, já não rio tanto. Mas me acostumei com o que me tornei. Não que eu goste mas, como disse Jack Nicholson naquele filme, "...e se melhor for impossível?...".