sexta-feira, 24 de setembro de 2010

POBRE JORGE

 
“A vida de todo mundo é como uma longa calçada. Algumas são bem pavimentadas. Outras, como a minha, tem fendas, cascas de banana e bitucas de cigarro”.

Max Horowitz



Jorge passara dos 40 e estava (ou era, já nem sabia mais depois de tanto tempo) deprimido.

Na verdade, como aquele cão que só entra num bosque até a metade, porque depois dela já está saindo, caminhava para os 50 e estava desempregado. Por sorte, sua mulher ganhava o suficiente para manter a casa, mas ele já duvidava de quanto tempo mais conseguiria se manter em casa.

Como dizia um colega, houve dias em que teve de se segurar no batente da porta, pois sua mulher cobrava furiosamente alguma atitude. As mulheres se habituaram rapidinho à igualdade de direitos, pensava ele, mas não à igualdade de deveres. Fosse ele, o homem, mantenedor da casa não haveria encrencas, mas são poucas as mulheres que admitem um marido “do lar”. A dele não era uma delas.

Mas Jorge...

Jorge era todo reticências. Tudo, todos os pensamentos, tomadas de decisão, argumentos, iniciativas... Tudo para ele sempre vinha acompanhado de muitas, mas muitas reticências... E assim era difícil sair de seu lodaçal de pensamentos.

Passava tardes inteiras no computador, isolado em um cômodo escuro da casa. Vez ou outra, para variar um pouco, fazia palavras-cruzadas. Certa vez estava completando uma quando leu “aqueles de bem com a vida” e, estranhamente, a primeira coisa que lhe veio à mente cabia no espaço: “retardados”. Essa palavra não cruzava direito com as outras, mas como cabia ali escreveu mesmo assim e abandonou o hobby naquele dia.

Resolveu ir ao shopping ali perto de sua casa ficar vendo vitrines. Coisa meio boiola, seu superego lhe dizia, mas para quem estava há dias enfurnado criando mofo em casa talvez fosse bom ver como andava o mundo lá fora. A tarde estava maravilhosamente cinzenta, quase fria e assim ele não suaria ao fazer o trajeto a pé.

Vitrines, vitrines, vitrines... Desempregado e duro, sem coragem de ficar pedindo dinheiro à esposa, sentia-se como um cachorro na calçada olhando frangos rolando naqueles fornos: podia babar por algo, mas não podia tê-lo.

De fato, ele nem desejava nada, só queria dispersar um pouco. Começou a rir sozinho quando viu calças jeans todas rasgadas, trituradas, vendidas a preços exorbitantes. Lembrou do Dr.House que em certo episódio disse que “...algumas pessoas gastam fortunas para parecerem mendigos...”.

Essas pessoas deviam economizar, pensou, e talvez comprar uma calça jeans “normal”, vesti-la e atravessar a 23 de Maio de olhos vendados na hora do rush. Mancharia de sangue, um pouco, mas os rasgos e ralados ficariam bem parecidos.

O cartaz no cinema anunciava o filme 2012. Nem valeria a pena assistir e sonhar com esse alívio. Os especialistas já o haviam feito desistir de esperar o fim tão próximo e o mundo, que merda, ainda ia durar muito. Acabaram com sua graça ao desmistificarem o Calendário Maia e as demais supostas previsões desastrosas.

Ele não entendia o medo que as pessoas tinham do Armagedom. O mundo, acabando, todo o sofrimento de todas as pessoas terminaria, oras! E, num país eminentemente cristão, não era a maioria delas que acreditava em vida após a morte, em “ir para junto do Senhor”? Pior ele que não acreditava em coisa alguma. Jorge havia retirado o verbete “acreditar” de seu cérebro. Tornara-se racional, exato, lógico.

Isso o fez lembrar de Max, que trocava cartas com Mary (veja o trailer). Ele se identificava com o personagem (outro trecho do filme). No filme... Bem, não vou contar o fim, mas ele imaginava que terminaria como Max.

Aliás, Jorge havia se tornado tudo o que no passado, em seus piores pesadelos, temera: solitário, fracassado, pobre, sem perspectivas, gordo e com dores pelo corpo. Certa vez lhe disseram que devia tomar cuidado com o que pensava, pois o pensamento negativo atrairia coisas ruins. Temer algo poderia fazer com que se tornasse real, lhe disseram, mas ele pensava diferente. Se temia era porque havia a consciência profunda de que aquilo poderia vir a se tornar realidade. Era como se a vida fosse um caminhar sobre uma lâmina: tudo pode parecer estar indo muito bem, mas basta um pequeno deslize e...

E assim, atolado em pensamentos dispersos e desconexos, Jorge passava seus dias reticentes...

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

TER DEPRESSÃO É BOM, RUIM É ESTAR DEPRIMIDO

Brincadeiras à parte, novamente se levanta a questão bastante polêmica do tal "lado bom da depressão": a revista Mente e Cérebro deste mês traz artigos nos quais especialistas afirmam que a depressão "...pode ser uma adaptação mental saudável que nos oferece melhores condições para resolver problemas complexos" em "O Lado Luminoso da Escuridão".

Em outro artigo, "É Mesmo Ruim Sentir-se Tão Triste?", explicam o TDM como um "...mecanismo de autoproteção contra situações desgastantes; o rebaixamento do humor aumenta a capacidade de concentração e nos faz rever atitudes".

Há também uma crítica (positiva, de modo geral) ao livro "A Tristeza Perdida" dos psiquiatras Allan Horwitz e Jerome Wakefield, no artigo "Com quanta tristeza se faz uma depressão?", segundo o qual "...os autores querem demonstrar que a tristeza intensa é uma capacidade natural humana e não uma fraqueza de caráter e que a tristeza é produto de processos mentais relevantes funcionando conforme foram biologicamente projetados para reagir à perda. São problematizadas as vantagens e desvantagens de haver definições demasiado amplas de transtorno depressivo, bem como tratamentos injustificados, medicalização desnecessária e estigmatização".

A depressão é comparada a uma febre: ela não é o problema, mas sim um sintoma e, como a febre, necessária em determinadas situações para o restabelecimento e reequilíbrio do organismo, ou seja, o nosso.

Ainda estou lendo, mas uma coisa me chamou a atenção: nestes e em outros artigos os especialisatas parecem ser unânimes em propor aos deprimidos que não fujam do problema, não procurem distrações ou sigam conselhos até bem intencionados como "manter a cabeça ocupada ajuda a melhorar" ou "vai trabalhar que passa". Isso apenas prolonga o sofrimento ou o transforma numa bomba relógio, que mais cedo ou mais tarde...

Ao contrário, dizem que devemos sentir o problema, vivenciar essas emoções, colocar para fora, escrevam sobre o que se está passando. Instintivamente, é mais ou menos isso que tenho feito aqui.

Experimente você também. É realmente aliviante.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

NEGÃO

Cães se conhecem uns aos outros e não sabem seus nomes. Acho bom mas, para contar essa outra estória, vamos dizer que ele se chamava Negão.

Quando eu tinha restrições de horários impostas pelo trabalho levava minhas cadelas para passear na praça próxima de casa à noite, após o expediente.

A primeira vez que vi Negão fiquei receoso: grande, magro, sentado num canto escuro da praça, meio descabelado e olhos amarelados, logo me fez lembrar aquelas cenas de filmes de terror em que os olhos de alguma fera brilham no escuro da noite.

Ele se aproximou hesitante, não veio diretamente a nós, circundando o que podia ser um invasor hostil. Fiquei preocupado, pois ele poderia realmente se sentir ameaçado (por uma ferocíssima ShihTzu de lacinhos rosa e uma Schnauzer com a personalidade do Garfield).

Estávamos estudando a situação, olhos fixos um no outro apesar de já ter lido que contato visual pode ser interpretado como agressão. Se é verdade, ele que ficasse com medo de mim.

Curiosas e solícitas demais, sem nenhuma noção de perigo, as duas correram para conhecê-lo. Percebi que ele ficou um tanto incomodado, como que com medo delas. Caminhou em minha direção, fiquei firme e, de repente, ele encostou a cabeça em minha perna (quase em minha cintura) pedindo um afago...

Ficamos amigos.

Continuei encontrando Negão por diversas vezes, inclusive depois que ele se associou a um morador de rua. Tomava conta dos apetrechos do homem enquanto ele ia comprar pinga e salame no bar da esquina.

Brincalhão, corria pela praça solto, livre, sem horários nem obrigações. Ambos dormiam no coreto, mas Negão tomava seu banho de sol diário deitado entre os canteiros floridos. Pena nunca ter me ocorrido bater uma foto com o celular. Acho que ainda não me acostumei a tirar fotos com o telefone.

Quando chegava na praça ele corria em nossa direção e sempre vinha me cumprimentar. Algumas vezes levei ração, mas ele ignorava. Estava mais acostumado a comida de verdade, restos que o sem-teto lhe dava.

Uma vez o vi sozinho, do outro lado da Avenida Matarazzo, muito movimentada. Ele parecia estar querendo atravessá-la, mas estava difícil. Estacionei o carro, fui resgatá-lo, acompanhando-o a pé na travessia da avenida e deixei-o na praça, fechando o portão.

Certo dia, novamente na tal praça para o passeio diário, porém agora sem limitações de horário, encontro o morador de rua arrastando um pesado cobertor. Era Negão ali, sem um pedaço de seu flanco direito, sem vida.

Deve ter sido atropelado, mas o tal senhor insistiu em dizer que foi maldade de alguém, que aquilo era coisa feita com facão, que já haviam dito que iam matá-lo pois ele havia encrespado com alguns cães maiores, com donos, que também freqüentam a praça.

Nunca saberemos.

Adeus, Negão.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

MUNDO CINZA

Cientistas alemães "descobriram" que pessoas acometidas pela depressão enxergam o mundo menos colorido que as pessoas "normais"...

Alguém lembra daquela música "Things that make me go hmmmm..." ?

Eu entendo a metáfora em se dizer que o mundo fica menos colorido quando se está deprimido, mas daí a dizer que a retina começa a sofrer alterações e a pessoa pára de enxergar cores tem uma distância enorme. Até acredito que o cérebro do deprimido tenha problemas de decodificação do mundo externo e, por isso, "...as cores já não têm a cor que tinham, que a música não soa como soava antes e que a sensação é realmente de que o mundo está mais apagado...", mas isso é uma tentativa de traduzir em palavras uma sensação, não algo físico.

Bem, a pesquisa foi feita na Alemanha, país quase o ano todo cinzento, como relata uma colega que se mudou pra lá.

Queria ver o resultado dessa pesquisa aqui nos trópicos, com sol escaldante de outubro a abril.

Eu passei por fases bem terríveis e não me lembro do mundo ter perdido as cores, a não ser metaforicamente.

Você, que teve ou tem depressão, enxerga mesmo em tons de cinza?

Pra quem quiser ler, aí está: http://veja.abril.com.br/blog/diz-estudo/

terça-feira, 3 de agosto de 2010

FELICIDADE OBRIGATÓRIA

Em artigo no Estadão de hoje, Arnaldo Jabor toca num tema velho conhecido nosso: o da atual “obrigação” de ser feliz.

Dois parágrafos dele:

Hoje, a felicidade é uma obrigação de mercado. Ser deprimido não é mais "comercial". A infelicidade de hoje é dissimulada pela alegria obrigatória. É impossível ser feliz como nos anúncios de margarina, é impossível ser sexy como nos comerciais de cerveja. Esta "felicidade" infantil da mídia se dá num mundo cheio de tragédias sem solução, como uma "disneylândia" cercada de homens-bomba.

A felicidade hoje é "não" ver. Felicidade é uma lista de negações. Não ter câncer, não ler jornal, não sofrer pelas desgraças, não olhar os meninos malabaristas no sinal, não ter coração. O mundo está tão sujo e terrível que a proposta que se esconde sob a ideia de felicidade é ser um clone de si mesmo, um androide sem sentimentos”.

Acho que o Jabor andou lendo Maria Rita Kehl...

Artigo completo no Estadão:
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100803/not_imp589550,0.php

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

CULPA

Limb by limb, tooth by tooth
Tearing up inside of me
Every day, every hour
I wish that I was bullet proof

Bullet Proof - Radiohead


Todo mundo que já leu algum artigo sério sobre depressão sabe que a “culpa”, esse sentimento dilacerante, é uma constante nos acometidos pelo transtorno.

Muitos já leram também – e eu citei aqui – que a auto-ajuda não auxilia quem realmente precisa, e eu coloco na categoria de auto-ajuda aquelas mensagens e vídeos sobre alguém que sofreu muito, tem grave deficiência ou doença mas deu a volta por cima.

Muita gente parece gostar de receber esses vídeos ou apresentações em Powerpoint. Aparentemente, o efeito esperado é algo como “...oh, veja como esse aí sofreu. Eu até que estou bem comparado com ele...” e o indivíduo sai - iludido - achando que a vida dele nem é tão ruim.

Eu detesto, e nem é porque são bregas ou chatos, mas porque em mim resultam numa piora de meu estado. Ou resultariam, se eu não conhecesse esse mecanismo e não lutasse contra ele.

Dia desses recebi um vídeo sobre um cara sem braços e pernas. Não vi mais que dois segundos e por isso não sei o que o cara apronta, mas com a sugestiva frase “Pare de reclamar da vida” já fiquei puto.

Minha leitura – e a de muitos depressivos - é: “...ah, o cara não tem braços nem pernas mas está aí, desfrutando da vida, fazendo isso e aquilo enquanto eu estou aqui super saudável mas semi-morto ... Sou um merda mesmo...”.

Com braços e pernas normais, o efeito em mim é o contrário do esperado e, apesar de conhecer esse processo mental, não é fácil controlar o sentimento de culpa que sobe pela garganta como um vômito. Culpa por não reagir a contento, culpa por não ser o que esperavam de mim, culpa por não ser o que EU esperava de mim... culpa... culpa...

E então a garota do caixa pergunta se não quero colaborar com o planeta e colocar as compras em caixas ao invés de sacolinhas plásticas...

O mundo que se exploda!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O SILÊNCIO E O ESCURO

"Todos os mistérios do homem derivam de não ser capaz de sentar silenciosamente em uma sala isolado." (Blaise Pascal) 




Muito se fala e escreve sobre a importância do silêncio. Coloque “importância silêncio” no Google e terá leitura pro resto da vida. Engraçado, poderia dizer que se faz muito barulho pelo silêncio...

Indo desde a manjada “Deus nos deu duas orelhas e uma boca...” a questões metafísicas, vê-se alguma confusão do silêncio com apenas fechar a boca, ficar mudo. Há um koan sobre isso:

“Quatro monges decidiram meditar em silêncio completo, sem falar por duas semanas. Na noite do primeiro dia a vela começou a falhar e então apagou.

O primeiro monge disse:

- Oh, não! A vela apagou!

O segundo comentou:

- Não tínhamos que ficar em silêncio completo?

O terceiro reclamou:

- Por que vocês dois quebraram o silêncio?

Finalmente o quarto afirmou, todo orgulhoso:

- Aha! Eu sou o único que não falou! “

Mas o Silêncio é muito mais que isso. O Silêncio de que escrevo é o da mente.

Se a gente está lendo, vendo TV ou navegando na internet nossa mente não está em silêncio.

E porque parece ser tão difícil – para todo mundo desde sempre e atualmente muito mais - ficar em silêncio?

O silêncio parece ser, para as pessoas em geral, como o escuro para crianças. Um monstro pode estar debaixo da cama, um bicho-papão no armário, as sombras parecem se mover, ameaçadoras, em nossa direção. Não há como antecipar o que pode estar vindo nos pegar...

Assustador para grande parte das pessoas, pois é nesse momento que vemos a nossa realidade, é no silêncio – e não no mutismo – que ficamos verdadeiramente a sós e encaramos... Nós mesmos.

Como uma criança, queria ficar no escuro e perguntar ao bicho-papão porque quer me pegar. Encarar o monstro no guarda-roupas e saber o que quer comigo. Dizer às sombras que podem vir e não lhes farei mal.

Talvez, com essa conversa no silêncio – ou no escuro, como queira - ficássemos todos amigos.

E em paz.


terça-feira, 20 de julho de 2010

Deprimido é uma merda.


“O depressivo sofre de uma liberdade conquistada, porque não sabe desfrutá-la”. 
Elisabeth Roudinesco - “Por que a psicanálise?”.


Não importa o quão boa seja a notícia, o quão elevado seja um comentário ou opinião, a gente sempre vê o lado negativo das coisas. Que saco isso!...

Estive “me observando” e notei que faço isso constantemente. Se me elogiam, logo penso em retrucar apontando minhas falhas. Se recebo uma boa notícia, de imediato comento sobre o lado ruim da coisa. Se algo bom acontece, fico prevendo possíveis conseqüências nefastas e desdobramentos negativamente inesperados.

Quanto disso é pura chatice e quanto é seqüela da depressão? Eu não era assim “antes”...

Então comecei a me policiar, me esforçando em ao menos manter a boca fechada. Penso em todas essas “negatividades” mas evito dizê-las e estragar o dia dos outros (isso não vale aqui no blog, pois essa é a razão dele existir).

Quanto disso é fuga? Quanto disso não é medo de encarar uma realidade da qual “penso” não gostar? Porque não fico, muito mais simples seria, feliz com um elogio ou uma boa notícia e, ao contrário, me recolho entre as nuvens negras de pensamentos depressivos?

Certa vez, em “O Poder do Mito”, de Joseph Campbell, li a estória que ele conta sobre um nativo africano que vivera toda sua vida na mata fechada e que, acompanhando uma expedição, ao chegar na planície aberta apavorou-se. Não tinha noção de distância, de perspectiva e vendo os animais – que na verdade estavam bem longe – amedrontado correu de volta para a floresta.

“O depressivo é aquele que percebe o campo aberto à frente dele e percebe também o medo que ele tem de ocupar esse campo. Porque dá medo mesmo”, diz Maria Rita Kehl, de “O Tempo e o Cão” em entrevista a Lisandro Nogueira e Luciene Ferraz, revista Época.

Será que, tão acostumado a ver tudo pelos filtros cinza de depressão, simplesmente não sei ser feliz?

Será possível que, como o nativo acostumado à mata fechada, estou eu acostumado às nuvens negras da depressão e apavoro-me ao imaginar sair dessa "zona de conforto"?

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O ESFORÇO E O RESULTADO

"O que mais desespera não é o impossível. Mas o possível não alcançado." (Robert Mallet)

A despeito de suas importâncias ou inexistência de opções, as críticas, comentários e análises a posteriori, além de serem muito fáceis de fazer, carregam um quê de crueldade – e em muitos casos, hipocrisia e covardia também.

Olhando apenas como exemplo, por ser o fato quente do momento, a participação da seleção brasileira na Copa ilustra bem o assunto.

Dunga teve uma trajetória de sucesso durante os quatro anos à frente do time. A própria Globo, em seu jornal noturno, mostrou isso. Apesar de haver críticos e opositores, havia também grande quantidade de elogios. Procure rápido na internet, antes que apaguem, e verá como se dirigiam a ele como “líder nato” e outros adjetivos.

Veja, por exemplo, dois parágrafos retirados de artigo na VOCÊ S/A sobre Dunga:

Numa batalha travada no palco decorado com as cores e humores do adversário, cercada de polêmicas preliminares e rivalidade histórica, o futebol pentacampeão mostrou insuperável solidez, inesperada inteligência e implacável eficácia. Uma equipe com a inconfundível marca do seu líder”.

Sem dúvida uma história inspiradora para muitos de nós que acabaram de chegar a uma posição de liderança e enfrentam, ainda, a desconfiança de um ambiente altamente competitivo”.

Seguindo, talvez, o que é escrito nos mais variados livros de autoajuda e filmes com mensagens engrandecedoras, o técnico da seleção provavelmente “seguiu seu instinto”, “foi contra tudo e contra todos” atrás de seu sonho (quem nunca leu ou viu isso por aí?!).

Todas as suas características, inclusive a tão propalada teimosia, foram vítimas da circunstância. Em outras palavras: nossas qualidades e defeitos são circunstanciais (ahhh, descobri a América...).

Se saísse dessa vencedor, a estória de Dunga viraria livro de administração, seria tema de aulas em MBAs, utilizado como exemplo por gurus de estratégias em palestras caríssimas e mencionado em todo o tipo de artigo motivacional e engrandecedoras mensagens de e-mails.

O problema dele foi o RESULTADO. Não importa o que vc faça, quanto você faça nem como faça. Ninguém se importa com isso, esquecendo o tal do “o importante é competir”. Só importa o RESULTADO. É dele que o resto se desenrolará – opiniões, críticas, comentários.

É ele, e só ele – não seu esforço, nem sua dedicação ou seu sangue, suor e lágrimas – que determinará se você é herói ou incompetente.

A sociedade atual não tolera o fracasso, ignorando completamente que ele é uma possibilidade maior que o sucesso (caso contrário, como já disse por aí, a pirâmide socioeconômica teria de ser virada de ponta-cabeça).

Isso, infelizmente, valeu para Dunga e vale pra todos nós. Pense nisso antes de criticá-lo. Amanhã pode ser você.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

BUSQUE AJUDA

"É como se um vazio se esparramasse em toda à sua volta, e às vezes houvesse dentro deles uma espécie de buraco que não conseguem preencher com nada".



“...angústia, ansiedade, desânimo, falta de energia e, sobretudo, uma tristeza profunda, às vezes tédio e apatia sem fim. Faz as coisas com dificuldade, como se estivesse pesado, lento, sem prazer, fazendo o mínimo, só o essencial a cada dia... Quase não conseguem sentir prazer nas coisas que normalmente as interessava, e por isto têm pouquíssimos interesses. São pessimistas. Muitas vezes têm dificuldades com o sono, ou com apetite.


Você conhece a ABRATA?

http://www.abrata.org.br/

terça-feira, 22 de junho de 2010

GATILHOS

“Se amo meu semelhante? Sim, mas onde encontrar meu semelhante?” – Mário Quintana.



No blog da Theresa Hilcar, ao qual já me referi em outro post, ela fala sobre os gatilhos que podem disparar uma crise ou aprofundar um estado latente e tem absoluta razão quando escreve que “...o que pode perfeitamente ser trivial, normal, para muitos, é tremendamente dolorido para nós”.

O computador que quebra, fechando sua janela para o mundo.

Um teste de audiometria que te deixa com nervos à flor da pele por não conseguir repetir o que a fonoaudióloga está falando – e descobre-se ainda mais surdo que antes.

O aniversário chegando e nada a comemorar (um ano a menos nesse mundo, talvez...).

A dor na coluna que só piora e te faz sentir muito mais velho do que é.

As contas que chegam e o dinheiro que falta.

Os carros novos dos vizinhos e a sua vaga vazia. “Culpa” por não ser como eles...

Uma proposta de publicação recusada. Nada que faça parece ter valor para quem quer que seja...

A total inutilidade da busca por emprego, que só reforça o sentimento de inaptidão e incompetência...

Mas o pior mesmo da depressão não são os gatilhos nem sintomas. São a burrice, ignorância e estupidez das pessoas que nos cercam.

São elas as responsáveis pelos gatilhos mais devastadores, pelos sintomas mais profundos e doloridos. Talvez por isso deprimidos sejam um tanto misantrópicos.

Que bom seria viver rodeado apenas de animais. Eles nunca o decepcionam, jamais acusam nem questionam. O amam do jeito que é. Eu queria ser a pessoa que meu cão faz parecer que eu sou.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

SONHOS E DÚVIDAS

"Só sabemos com exatidão quando sabemos pouco; à medida que vamos adquirindo conhecimentos, instala-se a dúvida."
Goethe


Um interesse quase nulo sobre o mundo exterior, mas uma intensa e lancinante vivência interior, uma terrível dificuldade em simplesmente viver, profunda insegurança ontológica, um flerte com todos os tipos de crenças sem, no entanto, acreditar em nenhuma delas, falta de identidade e referências numa sociedade em que valores metafísicos estão em pleno declínio.

Posso apostar que você leitor se identifica com o parágrafo acima. Eu me identifico e, assim, me identifico com Fernando Pessoa e Kafka, segundo artigo sobre o "Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Portugês" publicado no Caderno2 do Estadão de ontem. Não sei sobre você, mas a mim falta "apenas" o talento desses dois, talento esse que invejo e busco nas profundezas de meu ser.

Mas será mesmo que tenho algum talento? Se sim, onde terá ido parar que não consigo colocá-lo em prática?

Na caixa de hobbies, ou seja, atividades que dão prazer mas não dão dinheiro? Na repartição de sonhos, ou melhor, coisas fluidas que jamais se materializarão? Na seção de protelados, ou, coisas que deixei pra depois, não desenvolvi e definharam?

Onde está esse talento que tanto procuro? Onde está aquilo que nem sei se existe e que ninguém vê?

Diversos textos nos impelem a buscar e seguir nossos sonhos. Eu mesmo tive por muito tempo - e ainda quero acreditar nela - como diretriz uma frase de Joseph Campbell - "follow your bliss" - mas não estarei eu numa cruzada quixotesca em busca de algo que existe apenas em minha imaginação?

Até que ponto devemos correr em busca de nossos sonhos enquanto, como cantava Cazuza, "o tempo não pára" e a vida vai passando, passando?...

Não será essa minha busca por um suposto talento um artifício que criei para mim mesmo a fim de fugir ao "sistema", ou seja, parar de procurar emprego que, aliás, há tempos é uma tarefa inútil e só me deixa ainda mais deprimido por não resultar em nada?

Existem as mais diversas estórias e causos sobre aqueles que teimaram, lutaram e até remaram contra a maré atrás de sonhos e, finalmente, triunfaram. Muito bonito, mas há um detalhe: conhecemos as estórias dos que tiveram sucesso em suas empreitadas simplesmente porque são ou ficaram famosos com isso.

Não conhecemos as estórias - e o mundo faz questão de escondê-las de nós - daqueles que lutaram a vida toda, se esforçaram ao máximo, tiveram até prejuízos materiais, pessoais e sociais em suas buscas por seus sonhos e, antes de alcançá-los ou materializá-los, seus tempos acabaram, morreram pobres, anônimos, sozinhos.

Sabendo que as estórias de fracassos são a maioria, caso contrário a pirâmide social teria de ser invertida, outra amargurante questão se coloca: vale mesmo a pena lutar sempre, desistir jamais? Ou essa é apenas mais uma frase bonitinha pseudo-motivadora que alegra as cabeças menos-pensantes?

É mesmo certo passar poeticamente a vida atrás de um sonho ou assumirmos pragmaticamente nossa existência e, não visualizando outra saída no horizonte, arrumar um emprego qualquer apenas para pagar as contas e ir sobrevivendo?

E o risco de, no ir sobrevivendo, nos acostumarmos a isso e vida passar, passar, até que seja tarde demais?

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Depressivo na Contramão

É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz a uma estrela brilhante

Nietzsche.
 
 
"O Depressivo na Contramão" (leia ali no menu "Artigos", à direita) é mais um brilhante artigo sobre depressão, analisando o livro o Tempo e o Cão, que novamente recomendo.
 
Acredito que todo deprimido já se sentiu na contramão de seu tempo, de sua sociedade, e injustiçado por se sentir assim.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

SUB ZERO

Não sou nada.

Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.

Trechos de “Tabacaria”, Fernando Pessoa.


Dia desses recebi por e-mail, de novo, aquela tal estorinha da reunião numa multinacional em que o chefão diz que ninguém é insubstituível e alguém solta um “E Beethoven?”.

Segue-se então a costumeira lição de moral que tenta nos fazer acreditar que, pelo contrário, nós somos sim insubstituíveis.

Eu até acho legais algumas dessas estorinhas de auto-ajuda, de motivação mas, em geral, elas carregam consigo dois problemas: para pessoas com a auto estima sub zero como eu, que já tentou praticamente de tudo pra “dar certo” na vida (seja lá o que isso for) e não conseguiu, elas caem na questão da auto ajuda que não ajuda quem realmente precisa (veja este post mais antigo). Outra coisa é que, invariavelmente, ou elas fogem à realidade ou, pior, mentem descaradamente.

Uma das que mentem descaradamente é aquela da águia que se retira no alto da montanha, arranca as próprias penas e até o bico para depois meio que renascer, renovada, para enfrentar os desafios da vida. É preciso lembrar às pessoas, ao menos àquelas com idade mental adulta, de que pássaros assim não existem na natureza. E a Fênix é apenas um ser mitológico...

Outras, apenas derrapam. É o caso dessa do insubstituível.

Derrapa em primeiro lugar quando diz que “...Cabe aos líderes de sua organização mudar o olhar sobre a equipe e voltar seus esforços em descobrir os pontos fortes de cada membro. Fazer brilhar o talento de cada um em prol do sucesso de seu projeto”.

Isso significa que eu tenho o tal talento mas é o outro – os líderes, o chefe... - que precisa me descobrir e me incentivar... Ora, saída pela esquerda, não?! Se não tenho sucesso não é porque sou um zero à esquerda, é culpa dos outros que ainda não me descobriram. Brilhante...

Depois, dizer que somos únicos é... O óbvio ululante! Claro que somos todos únicos, assim como todo mundo. Isso é uma coisa. Outra é ter, de fato, um talento único.

De uma vez por todas, NÃO, não somos todos Beethovens, Einsteins, Garrinchas ou Zacarias. Muitos de nós não tem talento especial algum ou, que seja, talento razoavelmente destacante e aproveitável numa empresa.

Muitos de nós, a imensa maioria, somos apenas peões. De macacão ou de gravata, mas peões. Somos sim substituíveis. Não fosse assim o sistema todo, a economia, a vida em sociedade não funcionava. Lembrando que se você não é substituível também não pode ser promovido, certo?!  ;-)

Mas ninguém, com ou sem talento, gosta desse tipo de choque de realidade. Auto-enganar-se parece ser o hobby oficial e natural do ser humano.

domingo, 30 de maio de 2010

AUTO ENGANO

A relação mais íntima, traiçoeira e definidora de um ser humano é a que ele trava consigo mesmo.


Essa frase está no livro Auto Engano, de Eduardo Gianetti.

Há algum tempo quero ler esse livro, mas em minhas divagações acabo esquecendo de comprar. Hoje, procurando por uma resenha dele, acabei encontrando o PDF do livro na íntegra, que compartilho com vocês aqui no Crônicas.

Veja o menu de "Artigos" alí à direita.

Comecei a ler e ainda não posso dar minha opinião mas, sendo a depressão uma viagem às profundezas de nosso interior, acredito que vale o investimento de tempo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O LADO BOM DA DEPRESSÃO


Antes de se revoltar com o título (li várias críticas coléricas em outros sites), leia com atenção. A Revista Galileu publicou artigo bastante interessante sobre o assunto.

Acredito que a depressão seja um processo e, como tal, obviamente há começo, meio e fim. Não tenho muita certeza sobre se há mesmo um fim ou apenas um recesso, uma diminuição dos sintomas - ou, talvez, quem tenha passado por tal processo nunca mais volta a ser a mesma pessoa de antes, por isso a não percepção de fim no sentido de "voltar ao normal".

De qualquer modo, creio que é possível sim enxergar o lado bom desse transtorno, basta que se chegue neste estágio.

Se você não vê é porque ainda não chegou lá.

Na coluna à direita coloquei um link para um "doc no qual copiei parte de artigos nesse sentido.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

DONA ROSA



Minha mais forte recordação dela somos nós dois, em plena tarde de sol, sentados no sofá da sala, ela fazendo tricô (ou aquilo era crochê, nunca sei) e eu comendo biscoitos.

Volta e meia, olhando sobre os óculos, ela dava uma espiadela na TV em preto e branco em que eu assistia aos desenhos do Pernalonga.

Gordinho, às vezes eu “matava” um pacote de bolacha ou salgadinho e ela me dava dinheiro pra ir correndo durante o intervalo comprar outro na venda da esquina.
Enquanto minha mãe, professora de primário, trabalhava meio período – que era quase que o dia inteiro pois gastava horas de ônibus entre o Ipiranga e São Caetano – ela que tomava conta de mim.

Nos raros momentos de sarcasmo, gostava de lembrar à família toda cenas de quando eu era bem pequeno, coisas envolvendo nariz escorrendo, fraldas cheias, medos... Não era por mal, claro, era só pra rirmos um pouco.

Minha avó paterna, a Dona Rosa, 93 anos, faleceu hoje.

terça-feira, 11 de maio de 2010

DEPRESSÃO COMO UM DESPERTAR DA IGNORÂNCIA SOBRE A VIDA

A frase acima, de certo modo, resume meus últimos 5 anos. Era essa "A" frase que tanto procurei.

Achei em um web site, cujo endereço repasso abaixo, repleto de curtos e interessantes artigos sobre nosso assunto em particular.

Não vejo com muito bons olhos a frase "Cura para a Depressão através..." disso ou daquilo, mas como não há nenhum "clique aqui e compre..." ou "filie-se à nossa Igreja" abaixo dos textos, vale a pena uma lida.

São textos breves, não sei da profundidade de seu valor médico-científico mas, muitas vezes, o óbvio é a coisa mais difícil de enxergar e é disso que eles tratam.


Gostei especialmente de ter lido algo sobre o que intuía - o despertar (nem diria tanto da ignorância, mas da ingenuidade) e da descoberta de potenciais desconhecidos (ambos no menu à direita - Despertar para a Vida).

O endereço é:
http://tratamentodadepressao.org/

sábado, 8 de maio de 2010

... SOU MAX



- Eu não sou rei, nem viking, nem nada.
- Mas o que você é então?
- ... ... ... Sou Max.
- Bem, não é grande coisa, não é mesmo?

O garoto Max conversa com seu monstruoso alter ego Carol em Onde Vivem os Monstros.

Passar por um momento de auto descoberta não é coisa somente para infância e adolescência. Pode ser muito revelador – e muito doloroso também – já na idade adulta.

Não sei ao certo se o processo depressivo pelo que passei tem a ver com isso, ou se passei por isso durante o episódio depressivo. Sei lá. Não lembro se estava na descida ou na subida, mas me recordo claramente de estar diante de mim mesmo por diversas vezes num diálogo muito semelhante ao de Max e Carol.

Vi, a certa altura, que eu não era quem imaginava ser ou quem havia planejado ser. Não era “...nem rei, nem viking, nem nada”. Eu era apenas eu mesmo.

Pode parecer ridículo, mas para mim foi um choque de realidade. Foi como se todo o cenário duramente construído ao longo dos anos simplesmente desmoronasse e, de repente, percebesse que na realidade recém percebida as personas cultivadas não mais se encaixassem.
Foi como ficar nu diante de mim mesmo pela primeira vez vendo que não me parecia com o que imaginava. Nem de longe.

O filme citado lá em cima vale a pena. Não se engane: apesar de protagonizado por um garoto e cheio de monstros na tela, não é um filme para crianças. Aliás, grande parte dos adultos também não entenderá bulhufas. Deprimidos compreenderão, tenho certeza.

O garoto Max passa por uma fase de mudanças e revoluções internas, psicoemocionais e, meio que por acidente, acaba fazendo uma viagem interior – para uma ilha onde só aconteceria aquilo que desejasse - na qual convive e confronta as facetas de sua personalidade.

Preste atenção em quem o garoto se liga de imediato, a necessidade de construir um “forte” inexpugnável para viver com “seus amigos” monstros, os diversos diálogos com seus alter egos e, no final...

Bem, está em DVD. Aproveite.



quinta-feira, 6 de maio de 2010

IGNORÂNCIA PODE SER UMA BÊNÇÃO


Suicídio não é querer morrer, é querer desaparecer.

Georges Perros





Um princípio básico da meditação, prática voltada a acalmar a mente, ao menos no Zen, é deixar os pensamentos passarem livremente, sem se ater a eles. Consideram que é impossível simplesmente não pensar em nada, esvaziar a mente como outras escolas pregam e tenho observado que eles parecem ter razão.

Não dá pra simplesmente não pensar em nada, mas é possível não concentrar-se em coisa alguma em especial, apenas deixar fluir os pensamentos até o ponto em que a mente realmente se acalma, o fluxo de frases, sons e imagens diminui como se uma tempestade se transformasse num lago calmo e profundo.

Mas e as emoções? Tenho dúvidas de que controlando pensamentos conseguimos controlar as emoções, os sentimentos, principalmente em nosso caso, deprimidos e distímicos.

O fluxo de sentimentos e emoções no deprimido, ao menos em meu caso nos piores (e diversos) dias, é caótico, tempestuoso, negativo, desesperançoso, angustiante, aflitivo, torturante.

O estômago revira, a cabeça gira, a atenção dispersa, o corpo inteiro dói, falta ar.

Nestes dias não há meditação que dê jeito e por diversas vezes gostaria muito de ter um botão “on/off”. Não que quisesse realmente dar cabo à minha vida, mas me desligar temporariamente, tirar uma folga de mim mesmo.

Por duas vezes tentei fazer uma “farmacinha” com tudo o que achei de remédios em casa. Leigo no assunto, separei os que achei que davam sono, principalmente anti histamínicos, antipiréticos e analgésicos com dipirona e tramadol. Peguei dois ou três comprimidos de cada e tomei com uma farta dose de uísque sem gelo num gole só.

Consegui apenas uma dor de cabeça daquelas...

O suicídio é tratado por muitos como "a saída mais fácil", "a fuga dos imbecis" ou "a saída do covarde". Duvido que um destes já tenha passado realmente por uma depressão. Como dizia Francesco Orestano, "o suicídio demonstra que na vida há males maiores que a morte".

Tenho medo de ficar paralítico, cego, surdo, acabar minha vida num banco de praça como morador de rua, mas morrer...

Dia desses me chega a notícia de que um colega de trabalho de minha mulher estava internado, intubado, em coma devido a uma overdose de antidepressivos.

Fico sabendo isso só agora que meu remédio acabou e resolvi tentar seguir adiante sem ele.

Puxa, se eu soubesse antes...

terça-feira, 27 de abril de 2010

EFEITOS COLATERAIS

I'm freaking out
So, where am I now?
Upside down
And I can't stop it now
It can't stop me now
oooh Oooooh Oooohhh

I - I'll get by
I - I'll survive

Alice - Avril Lavigne



Na Folha de São Paulo dia desses pude ler artigo sobre os efeitos colaterais dos medicamentos antidepressivos e como boa parte dos profissionais de saúde dá pouca importância a eles.

Havendo certa quantidade de medicamentos de eficácia semelhante, resta ao paciente escolher qual efeito colateral é mais suportável. Como a decisão por um ou outro medicamento é baseada apenas na anamnese, na conversa com o psiquiatra, pois os níveis de serotonina em seu cérebro não podem ser medidos em laboratório, em muitos casos é necessário ajustes da dose ou troca de remédio.

Digo isso por experiência própria. No início de meu tratamento me senti bem com o primeiro remédio, bem mesmo... Até que minha esposa me alertou: eu parecia um zumbi, ficava vendo TV quase sem piscar. Era verdade, eu parecia estar meio viajandão. Isso sem falar nos problemas na “hora H”.

Aumento de peso, dores de cabeça, tremores e diversos outros são efeitos colaterais amplamente relacionados aos antidepressivos, mas há um pouco explorado: a perda do mojo.

Um efeito colateral não dos antidepressivos mas da depressão é ter uma visão mais aguda dos fatos, das coisas, da vida. É experimentar sentimentos que, apesar de torturantes, antes desconhecia. É ter acesso ao fundo da alma. É vivenciar um conflito constante com a realidade à sua volta.

E, assim, com sorte se tiver uma queda para escrever, trazer à tona palavras cheias de sentimentos.

Os medicamentos antidepressivos acabam com isso, tiram de você aquele “talento” para ver as coisas de modo diferente da maioria, eliminam ou diminuem drasticamente seu conflito com a realidade. Psicológica e emocionalmente, sofre-se menos, passa a aceitar o mundo à sua volta com menos revolta, com menos angústia.

Ao longo do tempo percebi – e admito que pode ser efeito de atenção seletiva, mas vá lá – que sou mais crítico, mais mordaz e criativo quando não estou tomando nada. Sob efeito de comprimidos, as coisas ficam razoavelmente numa boa, perco a vontade de criticar, perco o senso de observação aguda.

Não que me transforme num zumbi, longe disso mas, numa comparação um tanto exagerada, diria que tomar antidepressivos, em alguns casos, é como decidir pela pílula azul e voltar a viver confortavelmente na Matrix.

Será que Neo foi um idiota por escolher encarar a realidade nua e crua?

terça-feira, 23 de março de 2010

A VIDA NÃO IMITA A ARTE...

Hold me now
I'm six feet from the edge and I'm thinking
Maybe six feet
Ain't so far down
I'm so far down
Creed


...Nem a arte imita a vida. Filmes em geral mostram o clichê da redenção, por exemplo, quando o cidadão comum que entra num inferno, passa as maiores agruras e no final tudo acaba bem.

Bonito isso... Mas não é verdade, é só um filme. Na vida real parece não haver redenção no final, aquele desfecho em que o personagem termina abraçando alguém, beijando ou sorrindo feliz com aquela expressão de “enfim, acabou” e, óbvio, tudo fica numa boa.

Na vida real, imagino que na maior parte das vezes, não há final feliz. Há apenas o final possível, que quase nunca é o que gostaríamos mas nos conformamos pois “tudo poderia ser pior”. Filmes não dariam boas bilheterias se retratassem a verdade.

Neles, Hollywood gosta de mostrar que a vida tem altos e baixos mas sempre termina no “altos”. Não, não termina. O filme é que termina, pois por algum motivo que desconheço estipularam que 80 minutos é o ideal para se contar uma estória. Eventualmente um pouco mais, como em Avatar.

Muitas vezes a vida real não tem altos e baixos, mas apenas baixos e baixos. Somos levados a acreditar que não ganhamos sempre, mas é duro quando percebemos que perdemos sempre.
Havia um cara assim. Ele desistira de lutar pois sabia que não havia um grand finale para ele.

Seguia em frente sem saber direito se era covarde demais para dar fim àquela existência medíocre ou se, soterrado no mais profundo de seu ser, havia uma fagulha de esperança que algo mudasse.

Já havia tentado de tudo, entrado em contato com todos e mais alguns, tido diversas ideias, mas sua vida simplesmente patinava.

Anos e anos sem progresso, apenas existindo. Sua angústia existencial era grande. Como gostaria de ser como os animais, que não se preocupam com o futuro, nem com sua passagem por esta vida nem se para ela há ou não um sentido. Apenas vivem. Isso deveria bastar, mas não.


Faltava-lhe o fôlego às vezes, tamanha a aflição. Para tentar não enlouquecer, às vezes caminhava.

Foi quando, tarde da noite andando pela rua, um homem o abordou com uma arma. Disse que ia matá-lo se não entregasse a carteira e o relógio.

Então, depois de muito tempo, ele sorriu.

terça-feira, 16 de março de 2010

INÚTIL


In this proud land we grew up strong
We were wanted all along
I was taught to fight, taught to win
I never thought I could fail

No fight left or so it seems
I am a man whose dreams have all deserted
I've changed my face, I've changed my name
But no one wants you when you lose


Peter Gabriel



O que define uma pessoa inútil?

Bem, como alguém já disse, ninguém é totalmente inútil pois pode ao menos servir de mau exemplo mas, voltando: é razoável a gente se sentir inútil porque não ganha dinheiro?

Parece que sim. Não importa o quanto você faça em casa, o quanto você queime todos os seus neurônios em tentativas frustradas de negócios, se esfole na procura absolutamente infrutífera por emprego, que preste todo o tipo de favores para um monte de gente.

Em nossa sociedade, se você “não faz dinheiro” você é um inútil.

Independente de longuíssimas elucubrações sobre o formato social no qual estamos vivendo, acho que isso começa lá atrás, quando ainda somos crianças e, mal sabendo falar direito, já temos de responder à pergunta “o que você quer ser quando crescer?”.

Lembro que queria ser astronauta. Não tinha a menor ideia do que era ser um astronauta (a maior parte das pessoas adultas ainda não sabe), mas queria ser um. Por quê? Vai saber...

E porque temos de “ser algo”, sendo esse algo uma profissão? Parece uma pergunta idiota, mas pense, saia da superfície, prenda o ar e mergulhe fundo nessa questão: uma profissão ou atividade econômica é o que define a pessoa em nossa sociedade. Carlos "é" médico, Eduardo "é" dentista, Márcia "é" analista de sistemas... Todo mundo “é” uma profissão, ninguém "é" somente gente, somente uma pessoa, um humano, uma unidade carbono do quarto planeta do sistema solar.

A gente deveria ser livre para, apenas, sermos nós mesmos. A resposta “correta” para tal pergunta deveria ser, já em nossa tenra infância (se eu tivesse filhos ensinaria essa) “eu não quero ser, eu já sou: eu sou eu mesmo”.

A pergunta é que está errada. O certo é “o que você vai fazer pra ganhar dinheiro e se sustentar quando crescer?”, mas alguém, politicamente correto, dirá que isso estressaria a criança. Talvez a pergunta fosse assim antes de resolverem resumi-la.

Pois bem, como não arrumo emprego nem consigo fazer pequenos negócios darem certo, não me sinto à vontade para dizer que sou publicitário. Afinal, essa é apenas minha formação acadêmica. Não me sinto à vontade para dizer que “sou” MBA em marketing, afinal esse foi apenas um curso noturno que fiz sei lá por que.

Então eu sou... O quê?

Minha agonia existencial terminou hoje pela manhã, quando fui fazer a declaração do Imposto de Renda de minha mulher. Descobri ali no programinha do IR uma definição para mim:

- eu sou o código “51 – pessoa absolutamente incapaz”.


terça-feira, 9 de março de 2010

VOCÊ FAZ O QUÊ?...


A inteligência é quase inútil para quem não tem mais nada.
Alexis Carrel



Em se tratando de Depressão, muitos especialistas e estudiosos ainda debatem o que vem primeiro. Não, não se referem ao ovo ou a galinha, mas sim à divisão entre o que é causa e o que é causado pelo estado depressivo.

No meu caso, nem eu mesmo sei apesar de tanto refletir sobre o assunto. Tive um "breakdown", aquele momento em que a derradeira gota faz com que o copo transborde mas, como na metáfora do balão ou bexiga, o último sopro é que a faz estourar mas ele sozinho, sem todos os sopros anteriores, provavelmente não faria mal algum.

Talvez eu precise de mais terapia, mas cansei de olhar pra mim mesmo como alguém que precisa se analisar. Quero ser normal - seja lá o que isso signifique - e seguir adiante.

Mas é duro...

No tal breakdown eu resolvi "promover minha demissão", ou melhor, fiz com que meus superiores ficassem sem saída a não ser me demitir e, desde então, fiquei meio perdido, sem rumo, vida profissional indefinida - ainda, três anos depois...

Dia desses um corretor de imóveis resolveu fazer a pergunta fatídica: "- Você trabalha em quê?...".

Minha mulher disse que fiquei roxo ao responder, em tom baixo e engasgado, que era publicitário. Na verdade, se tivesse respondido a primeira coisa que me veio à cabeça teria dito que sou um inútil mesmo - e estaria dizendo a verdade.

Tempos atrás, no fundo do poço, pensava a mesma coisa mas o pensamento era acompanhado de um terrível sentimento, algo como se tivesse uma bigorna sobre meu peito e nuvens escuras me envolvendo. Agora não mais.

Tenho a clara - e tranquila - convicção de que escorreguei e não consegui me levantar ainda, com a sensação de que aceito o fato de que não dei certo nesa vida e que, ao contrário dos filmes, não há redenção no final.

Que merda...


terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

DEPRESSÃO E O ZEN


Talvez eu e você nunca saiamos totalmente da areia movediça que é o TDM, talvez eu seja deprimido crônico mesmo, ou a depressão deixe sequelas.

A depressão me parece ser como as nuvens: elas se dissipam, mas não desaparecem totalmente. O céu chega a ficar completamente azul, mas elas estão por ali, em algum lugar, se formando, à espreita...

Ditados Zen budistas, os verdadeiros, são ótimos para explicar de modo profundo e sem teoriazações intelectuais coisas extremamente complexas – isso só é possível indo ao âmago das coisas, como o Zen faz tão bem - e eles extrapolam o universo filosófico oriental. Ou então minha imaginação é que é fértil...

Um desses ditados (ou koans) diz:

“Quando você se inicia no Zen, árvores são árvores, montanhas são montanhas.
Quando você estuda o Zen, árvores deixam de ser árvores, montanhas deixam de ser montanhas.
Mas quando você finalmente compreende, árvores são árvores, montanhas são montanhas”.
Talvez eu esteja forçando a barra, mas isso faz muito sentido para mim agora que estou com quase todo o corpo fora do banco de areia movediça da Depressão.

Digo isso de uma forma possivelmente simplista, mas me baseio em tudo pelo que passei e na tonelada de artigos que li.

De modos opostos, Zen e Depressão mudam nossa maneira de ver e sentir o mundo ao redor: o Zen, em geral, leva a uma harmonização com o mundo exterior através do equilíbrio interior. Já a depressão...

Não sou um fanático new age querendo influencia-lo, longe disso, mas tendo recebido alguns comentários e contatos por causa de meus posts, gostaria de dizer uma única coisa a todos que passam pelo que passei: ISSO PASSA.

Sei que, se você está na pior fase, não vai querer acreditar, vai retrucar, contra-argumentar, reclamar, resmungar... Mas quem aqui escreve também já teve crises abismais de angústia existencial e descrença absoluta numa solução que não o fim dessa vida - psicológica e emocional - miserável.

Como saí dessa? Posso dizer que foram as inestimáveis sessões de terapia (saudades da Dra. Carmem...) aliadas à medicação. Parei com ambas há algum tempo, quando decidi que eu teria de ser forte, teria de “andar com minhas próprias pernas”. Em verdade, eu tinha até certo medo de me viciar tanto na terapia quanto na medicação e não mais conseguir ir em frente sem elas.

Eu decidi? A terapia me levou a decidir? O medicamente fez meu cérebro decidir?...

Se eu saí de “onde” estava, você sai também. O importante – difícil, extremamente difícil durante os piores períodos – é saber, não acreditar, mas saber mesmo, que passa. Nada mais verdadeiro que “na vida tudo passa, até a uva passa”.

Me redimindo da piada acima, uma última estorinha Zen:

Um praticante de meditação estava triste, infeliz, pois há tempos vinha se dedicando a meditação sem nunca conseguir praticar uma boa meditação, sentia-se sempre desconfortável, agitado interiormente.

Desanimado com sua meditação, resolveu ir a um templo procurar a ajuda de um mestre Zen.

Chegando lá, encontrou o mestre varrendo a entrada do templo, com movimentos precisos, leves e harmoniosos.

-“Minha prática de meditação não está boa; muitas vezes me distraio, meu corpo me incomoda, minha mente se agita...” explicou o praticante.

“Tudo bem, isso vai passar ” - disse o mestre, sem olhar para ele e sem parar de varrer a entrada do templo, com movimentos precisos, leves e harmoniosos

Sem saber o que fazer, o praticante foi embora.

Algum tempo depois o praticante voltou ao templo e foi procurar o mestre.

Encontrou o mestre cuidando das flores do jardim, com movimentos precisos , leves e harmoniosos.

“Minha prática de meditação está maravilhosa; eu me sinto consciente, meu corpo não me incomoda, minha mente está serena “ - disse com alegria e felicidade o praticante.

“Tudo bem, isso também vai passar” - disse o mestre, sem olhar para ele e sem parar de cuidar das flores do jardim, com movimentos precisos, leves e harmoniosos.

Entendeu?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

SOLIDÃO NO CARNAVAL


"Por mais que a alma lide, não rompe a sua solidão, e caminha com ela, como formiga num deserto perdido."

Gustave Flaubert


Assim como a Lua vem depois do Sol e a chuva vem depois das 16h30, aí vem mais um Carnaval.
Como já escrevi anteriormente, meio que “por decreto” a multidão tupiniquim, até aquela de gravatas, ternos, taileurs e escarpins deixa-os de lado para entrar num fantasioso reino de vale tudo.

Muitos dos que passaram o ano todo com comedimento, pessoas até pudicas, de repente, como por encanto, se transformam: homens vestem-se de mulheres, mulheres vestem-se de coisa nenhuma e todos ficam pulando, suando, bebendo, lascivos, sedentos...

Porque não podemos ser lascivos e sedentos o ano todo, mesmo usando ternos e taileurs? Porque é preciso uma festa nacional para se mostrar quem realmente é por baixo da rala camada de verniz? Se Carnaval é uma oportunidade de sexo fácil para muitos, porque esperar o ano todo por esses quatro dias?

Fiquem disponíveis à esbórnia fulltime... Qual o problema? Somos todos adultos, pagamos nossas contas...

No Carnaval todos pulam alegres e felizes. Sorry, não se fica alegre e feliz por imposição de uma data específica. Isso tem outro nome...

E, mágica, todos voltam àquela vidinha mais ou menos na quarta à tarde ou quinta-feira pela manhã.

Não quero escrever uma (mais uma) crítica ao Carnaval. Afinal, analisando mais profundamente, não é o evento anual nem o comportamento das pessoas que me incomoda, mas sim minha (suposta?) solidão.

Não, não me sinto só por não ir pular, não ficar bêbado e suando em bicas num salão ou avenida inundada por barulho (aquilo é música?) ensurdecedor, apertado como sardinha em meio à multidão correndo o risco de ser atropelado por um caminhão de trio elétrico.

Sinto-me só por não ter com quem compartilhar essa minha aversão a tudo isso.

Lembro da época em que minha irmã, dois anos mais nova, saía com a turma de amigos e amigas, primos e primas, todos alegres para a matinê no clube. Eu, criança, já não via sentido em tudo aquilo e ficava sozinho com a Coleção Conhecer, lendo sobre os vikings, sobre as Cruzadas, sobre a chegada à Lua, sobre a vida marinha...

Isso permaneceu até os dias de hoje e, de certo modo, por não haver mais ninguém como eu por perto, fui levado a acreditar que eu era esquisito (ou chato, ou doente, ou maluco, sei lá).

Como seria bom ter tido por perto alguém que não se importasse com a alucinação que toma quase que a todos nessa época, que não ficasse aflito ou aflita por estar ali sentado “enquanto todo mundo aproveita” (?!?), mas que gostasse de ler, como eu, que apreciasse o silêncio, alguém com quem pudesse trocar ideias, filosofar, deixar a mente viajar, falar em voz baixa, contemplando possibilidades imaginárias e, quem sabe, supostamente perceber juntos alguma verdade até então encoberta.

Pessoas assim ficam bem em personagens de filmes e seriados. Duvido que Grisson, ex-CSI, gostasse de pular Carnaval. Mas na vida real, nem o mais simpático personagem tem seguidores quando aquilo que é seu charme vai contra o que a maioria pensa ser normal e está louca pra aproveitar.